Uma mulher pode perder peso com dieta, exercícios e outros tratamentos, mas continuar com volume acentuado nas pernas. Em alguns casos, essa diferença pode estar relacionada ao lipedema, uma condição que afeta principalmente mulheres e provoca um acúmulo de gordura com características diferentes daquele observado na obesidade.
A nutróloga Danielle Bezerra explicou as diferenças entre as duas condições. Segundo a médica, enquanto a obesidade provoca o acúmulo de gordura de forma distribuída por todo o corpo, o lipedema tende a atingir principalmente os membros inferiores e, em alguns casos, os superiores.
“Na mulher que tem obesidade, a gordura é generalizada, no corpo todo. Já a que tem lipedema vai ter maior acúmulo nos membros inferiores e, às vezes, isso pode acometer também os membros superiores”, explicou.
A diferenciação ganha relevância diante do crescimento da obesidade no Brasil. Dados do Vigitel 2024, do Ministério da Saúde, mostram que 25,7% dos adultos das capitais brasileiras e do Distrito Federal tinham obesidade naquele ano. O índice era de 11,8% em 2006. Entre as mulheres, a proporção chegou a 26,7% em 2024.
No caso do lipedema, um estudo brasileiro publicado em 2022 no Jornal Vascular Brasileiro estimou que 12,3% das mulheres apresentavam sintomas sugestivos da condição. Considerando a projeção populacional do Censo 2021, os pesquisadores estimaram que o percentual equivaleria a cerca de 8,8 milhões de brasileiras entre 18 e 69 anos.
Lipedema afeta principalmente mulheres
Enquanto a obesidade pode atingir homens e mulheres, o lipedema ocorre predominantemente no público feminino. A condição também pode ficar mais evidente em períodos marcados por alterações hormonais, como a puberdade, o período pós gestacional e a menopausa.
Danielle destacou esses três momentos como fases de maior atenção. “São os três hits hormonais que a gente tem. Já a obesidade não tem essa relação com esses picos de estrogênio”, afirmou.
O Consenso Brasileiro sobre Lipedema, publicado em 2025, também aponta uma possível relação entre o surgimento ou a progressão da condição e períodos de mudanças hormonais. O documento ressalta, entretanto, que ainda existem lacunas no conhecimento científico sobre a doença.
Outro aspecto importante é que o lipedema não está necessariamente relacionado ao peso corporal. Uma mulher com baixo Índice de Massa Corporal (IMC) pode apresentar a condição, assim como uma paciente pode ter obesidade e lipedema simultaneamente.
Por isso, o tamanho do corpo não é suficiente para identificar o lipedema. O diagnóstico é clínico e depende da análise do histórico, dos sintomas e das características apresentadas pela paciente.
Dor e hematomas estão entre os sinais
O aumento do volume das pernas não é o único sinal associado ao lipedema. Dor e facilidade para apresentar hematomas também podem contribuir para a suspeita da condição.
De acordo com Danielle, a dor pode começar de forma leve pela manhã e aumentar ao longo do dia. “Uma paciente que tem lipedema apresenta uma dor que começa leve pela manhã e vai se intensificando no fim da tarde. É uma dor de cansaço, que vai aumentando”, relatou.
A condição também pode estar associada ao surgimento de manchas roxas sem causa aparente e a alterações na aparência da pele. A nutróloga citou ainda casos de mulheres magras que apresentam celulites nas pernas e não percebem melhora com os tratamentos normalmente utilizados.
“São aquelas manchinhas roxas, os hematomas sem causa aparente. E as celulites na perna de uma paciente magra, que muitas vezes era tratada como celulite e não tinha melhora”, afirmou.
Não existe um exame único capaz de confirmar o lipedema. A avaliação médica considera o histórico da paciente, os sintomas e o exame físico, além da necessidade de diferenciar a condição de outras doenças.
Por que as pernas podem não emagrecer na mesma proporção?
A diferença entre obesidade e lipedema pode se tornar mais perceptível durante um processo de emagrecimento. Na obesidade, a redução da ingestão calórica e outras estratégias de tratamento podem diminuir a quantidade de gordura corporal. No lipedema, porém, o tecido característico da condição apresenta maior resistência à dieta e à atividade física.
“Na obesidade, quando você faz um déficit calórico, você perde gordura, vai emagrecendo. Já o lipedema é resistente à dieta e exercício físico”, explicou Danielle.
Isso não significa que mulheres com lipedema não possam perder peso. Quando existe obesidade associada, ela também precisa ser tratada. A perda de peso, entretanto, não necessariamente elimina o acúmulo característico do lipedema.
“Se a paciente tem obesidade e lipedema, a gente tem que tratar a obesidade e tratar o lipedema”, afirmou a nutróloga.
Tratamento exige acompanhamento individualizado
Por envolver características próprias e poder provocar dor, o tratamento do lipedema não deve ser baseado apenas na redução do peso. Danielle defende uma abordagem multidisciplinar, com a participação de médico, nutricionista, fisioterapeuta, profissional de educação física, cirurgião vascular e psicólogo, conforme as necessidades de cada paciente.
“A base do tratamento é a mudança de estilo de vida. A gente vai avaliar tudo que está fora do estilo de vida saudável da paciente”, disse.
Entre os cuidados estão a alimentação adequada, o tratamento da obesidade e de doenças metabólicas quando presentes, a prática de atividade física e o acompanhamento fisioterapêutico.
A escolha dos exercícios também precisa considerar as condições de cada paciente. Mulheres que apresentam mais dor podem precisar de atividades de menor impacto. Segundo Danielle, exercícios muito intensos podem aumentar o desconforto.
“Quanto mais intenso o exercício físico, pior é a dor da paciente. Por isso é importante o médico entender a doença. Se a gente leva o exercício físico até a falha da paciente logo no início, ela vai ter muita dor”, afirmou.
Entre as possibilidades citadas pela nutróloga estão exercícios na água, fisioterapia e atividades que utilizam o peso do próprio corpo. O acompanhamento fisioterapêutico também pode incluir recursos para aliviar a dor e o uso de meias de compressão.
Não há uma dieta única para quem tem lipedema
A alimentação também deve ser definida de acordo com as características de cada paciente. Danielle afirma que não existe uma dieta específica que funcione para todas as mulheres com lipedema, embora considere importante uma alimentação com perfil anti inflamatório.
Segundo a médica, algumas pacientes podem responder melhor a uma dieta cetogênica adaptada, com consumo muito baixo de carboidratos, enquanto outras podem apresentar resposta à dieta mediterrânea.
A orientação, portanto, não é retirar alimentos por conta própria. Danielle chamou atenção para mulheres que eliminam glúten, lactose ou outros itens por acreditarem que eles são necessariamente responsáveis pela inflamação.
“É aí que vão começando os transtornos alimentares”, observou.
O tratamento deve levar em conta as características individuais de cada paciente. Além disso, as evidências científicas sobre estratégias alimentares específicas para o lipedema ainda são limitadas.
Medicamentos para emagrecer tratam o lipedema?
O aumento do uso de medicamentos contra a obesidade também trouxe dúvidas entre mulheres com lipedema sobre o possível efeito dessas substâncias na condição.
Danielle diferencia o tratamento das duas doenças. Medicamentos indicados para a obesidade podem ser utilizados quando a paciente apresenta a condição e possui indicação médica para o tratamento, mas não são considerados medicamentos específicos para o lipedema.
“Por exemplo, a tirzepatida não trata o lipedema, mas existem alguns relatos de que ela atua no mecanismo fisiopatológico da doença”, afirmou.
Pesquisas ainda analisam mecanismos relacionados ao aumento das células de gordura, à inflamação e à fibrose observadas no lipedema. Segundo a nutróloga, novos medicamentos podem ser desenvolvidos futuramente com atuação específica sobre esses mecanismos.
“Daqui para frente pode ser que venham a surgir canetas que funcionem especificamente neste sentido. A gente está estudando para isso”, disse.
Condição também pode afetar a relação com o próprio corpo
Além dos sintomas físicos, o lipedema pode interferir na relação da paciente com o próprio corpo e com a alimentação. Mulheres que passam anos tentando emagrecer sem compreender por que determinadas regiões não diminuem na mesma proporção podem desenvolver uma percepção negativa da própria imagem.
Danielle relatou que já teve lipedema e afirmou ter enfrentado sofrimento psicológico e transtorno de conduta alimentar durante o processo. Segundo ela, a falta de reconhecimento da condição pode fazer com que a paciente questione os próprios esforços para emagrecer.
“É uma doença que, para quem tem, é muito dolorosa psicologicamente. Você imagina: a mulher faz uma dieta, faz exercício físico e não tem melhora. Às vezes, vai para um consultório e o médico não sabe o que é lipedema. Então, ela começa a não acreditar nela mesma”, relatou.
A nutróloga ressaltou que o maior reconhecimento do lipedema nos últimos anos não significa que a condição seja recente. O aumento das discussões sobre o tema está relacionado principalmente ao avanço dos estudos e à maior identificação de seus sinais e características.
Se quiser, também posso deixar o título mais chamativo, mantendo o tom jornalístico e sem sensacionalismo.
Da Redação
Com informações O Tempo
Sete Lagoas Notícias
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