Após a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) anunciar que investiga 13 notificações de suspeita de neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica (NOIA) entre pessoas que usam canetas emagrecedoras, o Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) divulgou uma nota de orientação. As notificações envolvem cinco casos com Ozempic, três com Wegovy, dois com Wegovy FlexTouch, dois com Rybelsus e um com Mounjaro.
Segundo Mauro Goldbaum, secretário-geral do CBO, o paciente com queixa visual deve procurar o oftalmologista. Caso contrário, é recomendável que ele discuta com o médico responsável pela prescrição da caneta a necessidade do acompanhamento oftalmológico.
Há comprovação científica?
A discussão sobre a possível associação entre o uso das canetas emagrecedoras e a incidência maior de NOIA começou a ganhar força em 2024, após um centro médico nos Estados Unidos relatar aumento de casos da doença em pessoas que utilizavam essas medicações.
Pesquisas foram conduzidas para tentar comprovar a relação. Os estudos são de qualidade, mas apresentam limitações metodológicas importantes, de acordo com Goldbaum.
O especialista argumenta que, por serem pesquisas retrospectivas baseadas na análise de bancos de dados já existentes, não há o rigor de um estudo controlado. O grupo que utilizava a medicação naturalmente apresentava um perfil clínico mais complexo, com fatores que, por si só, já elevam o risco cardiovascular e ocular.
"Você pega um banco de dados e avalia os pacientes que usaram e os que não utilizaram a canetinha. Não temos o controle se esses dois grupos são realmente equivalentes. Intuitivamente imaginamos que o grupo que usou canetinha provavelmente já era mais doente, com diabetes e obesidade, senão não usaria", explica.
Estudos brasileiros
Recentemente, oftalmologistas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) publicaram uma meta-análise tentando reunir e homogeneizar esses dados para obter uma conclusão mais robusta. No entanto, o resultado de uma meta-análise depende da qualidade das pesquisas que a compõem.
Como os registros originais omitem informações como tabagismo ou hipertensão - semelhante ao que ocorre nas notificações do Sistema Único de Saúde (SUS) -, o cenário permanece inconclusivo.
"Vemos que existe essa possibilidade, mas com efeito limitado. Não tem uma epidemia, não aumenta de uma forma expressiva o risco de NOIA. Alguns estudos sugerem que ela não dobra. Ao invés de ter um paciente a cada 10 mil, um caso a cada 10 mil, teríamos 1,5 ou 1,7 a cada 10 mil. É uma doença muito rara mesmo com a possibilidade dessa correlação", comenta o especialista.
Sem alarmismo
Diante disso, a recomendação do CBO é cautela sem alarmismo. Toda medicação potente traz riscos inerentes, e o tratamento deve considerar a balança de custo-benefício.
"Como esses pacientes já necessitam de acompanhamento oftalmológico regular para prevenir complicações como a retinopatia, a estratégia é evitar a automedicação, manter o monitoramento médico rigoroso e discutir individualmente a continuidade do tratamento", finaliza Goldbaum.
O que é a NOIA?
A neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica é uma doença rara que causa perda visual aguda. É mais comum atingir um dos olhos.
Segundo Mauro Goldbaum, secretário geral do CBO, a condição funciona de maneira semelhante a um derrame cerebral, só que atinge especificamente o nervo óptico. Ocorre quando uma artéria sofre uma obstrução, interrompendo o fluxo sanguíneo que deveria abastecer o nervo óptico.
Esse nervo capta os estímulos visuais recebidos pelo olho, transforma-os em impulsos elétricos e os envia até a região do cérebro responsável por interpretar essas informações e gerar a visão. Quando essa estrutura é afetada na região mais próxima ao globo ocular (porção anterior), o processo é interrompido. O termo "não arterítica" indica que essa falta de irrigação sanguínea não é causada por uma inflamação crônica nas artérias.
Quem está mais suscetível?
O problema geralmente acomete indivíduos acima de 50 anos, tabagistas e com doenças crônicas. Alguns fatores oculares aumentam a chance.
"Alguns pacientes têm a cabeça do nervo pequena. É uma característica estrutural do olho. Chamamos de "crowded disc" (disco óptico espremido). Por ser um canal muito pequeno, as artérias, as veias e as fibras nervosas têm menos espaço e ficam um pouco comprimidas, o que aumenta a chance de ocorrer um entupimento desses vasos e provocar a doença", explica o médico.
"No fundo, qualquer pessoa pode ter, mas quem apresenta essa alteração ocular associada a fatores de risco como idade acima de 50 anos, diabetes, obesidade, hipertensão e tabagismo tem uma probabilidade significativamente maior de manifestar a condição."
Quais os sintomas?
Ocorre uma perda visual repentina, sem dor, sem olho vermelho. Há uma alteração do campo de visão que geralmente afeta a metade superior ou inferior.
Há cura?
Não, mas pode haver uma recuperação parcial da função. "No derrame cerebral existe uma perda de função decorrente do ou consequente ao derrame. O corpo tenta resolver, revascularizando aquela região. Na maior parte das vezes, o comprometimento é permanente", diz Mauro Goldbaum.
Por Folhapress
Sete Lagoas Notícias
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