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Procedimento inédito no Brasil dá novo tornozelo e renova sonhos de jovem de Minas Gerais

10/07/24 - 15:26
Foto: Videopress Produtora - O procedimento já havia sido realizado em outros países, mas foi implementado no Brasil – mais precisamente em Belo Horizonte – em maio de 2024

 

 

Uma fala articulada e tranquila, que expõe a sabedoria e a maturidade de quem, mesmo com apenas 17 anos de idade, já teve que enfrentar muitas lutas. E em meio a uma delas, ganhou uma nova esperança, com um procedimento inédito no Brasil. Natural de Santa Bárbara, região Central de Minas Gerais, o jovem Victor Miguel Pereira Valentim é a primeira pessoa no Brasil a passar por um transplante de tornozelo.

 

O procedimento já havia sido realizado em outros países, mas foi inaugurado no Brasil – mais precisamente em Belo Horizonte - em maio de 2024 e pode transformar em realidade um sonho que Victor nutre a quase quatro anos: voltar a jogar futsal, paixão que o acompanha desde criança. 

 

“Desde os três anos, tinha amor pelo esporte. O futsal me marcou muito, foi onde consegui aprender a valorizar o esporte, tive felicidade, é onde eu esqueço de qualquer problema fora da quadra”, relata o jovem, que gentilmente recebeu a reportagem durante uma de suas três sessões semanais de fisioterapia, em BH.

 

A família de Victor sempre apoiou e alimentou o amor do garoto pelo esporte. O pai, o trabalhador florestal Adriano Valentim, sempre o levava para as quadras, cinco vezes por semana. Afinal, o menino era ‘fominha’, como carinhosamente define o homem. “Ele sempre teve um chute forte com a perna esquerda”, afirma.

 

A grande perda

Aos sete anos de idade, a determinação e a força de vontade de Victor passariam pelo primeiro teste de fogo. Acometida por um aneurisma, a mãe do garoto faleceu em 2014. “Tenho lembranças muito boas, sempre tive um carinho enorme por ela. Foi um período muito difícil para mim e meu pai, pois ficamos cerca de dois anos (e oito meses) só eu e ele, que foi mãe e pai ao mesmo tempo”, relembra, com a voz serena.

 

Uma das terapias de Victor para superar a dor era o futsal, sua paixão, mas até isso o destino tirou do garoto em 2017, quando, aos 10 anos de idade, ele foi diagnosticado com leucemia linfoblástica aguda, um tipo de câncer que faz as células da medula óssea se reproduzirem com erros no DNA.

 

O diagnóstico veio após Victor não conseguir se levantar para jogar bola e, então, procurar um médico. “Nós ficamos sem chão. Foi como se tivéssemos recebido uma sentença de morte. Pensei ‘O que vamos fazer?’, ‘Quanto tempo ele tem de vida?’. Isso é o que a gente pensa de imediato”, recorda-se Adriano Valentim.

 

Ainda em 2017, o tratamento começou e, até 2020, foi bem invasivo. “Tinha uma quimioterapia que era 24h por dia, não parava. Ele ia pro banho com ela, almoçava, dormindo, acordando, tomando quimioterapia”, conta o pai Adriano, que também ressalta a força de vontade do filho durante o tratamento. “Ao mesmo tempo em que ele fazia tratamento, ele estudava no hospital. A vontade de viver dele foi muito maior”, elogia.

 

Várias sessões de quimioterapia, corticoides e remédios depois, Victor venceu a batalha e entrou em remissão total da leucemia, em 2020. As idas ao hospital, com o passar do tempo, ficaram menos frequentes, se limitando a uma vez por mês. Mas durante a cura, veio outro grande baque.

 

A perda dos movimentos

Em meados de 2020, um momento que sempre representou lazer e alegria para o garoto foi o mensageiro inicial de uma má notícia. “Eu estava jogando com meus amigos na pracinha e comecei a sentir muita dor no tornozelo esquerdo. Após mais ou menos um mês de dor, falei com meu pai, fomos a BH e procuramos um ortopedista. Nos exames, foi constatado que eu estava com uma necrose óssea”, relembra Victor. 

 

A notícia significava outro afastamento do esporte, mas o médico, na mesma hora, já mostrou a luz no fim do túnel, com três procedimentos que poderiam resolver o problema. Um deles era a implantação de um cimento ósseo para colocar no lugar do tornozelo, solução que viria a ser adotada de forma provisória depois. 

 

Mas a paixão de Victor pelo esporte gritou mais alto e, com fé e coragem, ele escolheu tentar o transplante de tornozelo, até então nunca feito no Brasil. “Teria o risco de não dar certo, mas na minha fé, confiei que daria certo. Peguei com Deus e minha família”, diz.

 

O renascimento

A partir daí, a equipe de médicos cadastrou Victor Miguel em um banco de doação e aguardou aparecer alguém compatível. Após um ‘quase’ no mês de janeiro, em maio de 2024 veio a grande notícia. “Um dia, chegando do trabalho, minha esposa falou ‘Adriano, tenho uma ótima notícia para você: eles acharam um doador’. Já fomos para os processos da cirurgia, que foi um sucesso. Foi um renascimento para ele”, conta o pai, Adriano Valentim.

 

A cirurgia foi feita em maio de 2024, no Hospital Mater Dei, em Belo Horizonte, onde Victor já vinha fazendo acompanhamento ortopédico desde que descobriu a perda dos movimentos do tornozelo. No procedimento, foi transplantada uma articulação completa, a articulação tibiotársica (tornozelo) que consiste em dois blocos osteocondrais (osso e cartilagem), um da tíbia distal e outro da cúpula do tálus. 

 

A cirurgia exigiu precisão extrema, para evitar risco de perda de movimentos no local. “Os riscos específicos desse tipo de transplante são principalmente a não integração do tecido transplantado, ou seja, o organismo não conseguir ‘integrar’ o osso do doador e esse tecido não sobreviver”, explica o médico ortopedista do hospital Mater Dei Rodrigo Simões Castilho, especialista em cirurgia do pé e tornozelo, responsável por operar Victor.

 

Em busca do sonho

Victor agora está na primeira fase da fisioterapia, na qual o objetivo é ‘reativar’ os tecidos da região do tornozelo, para a região voltar a receber peso. Essa primeira fase do tratamento dura três meses. 

 

“O Victor ficou por muito tempo em imobilização (sem mexer o tornozelo), de três anos e meio a quatro anos. Isso é muito danoso para nosso corpo, nosso organismo tende a ficar muito preso àquela posição na qual ficou parado. Precisamos preparar, mobilizar, soltar esse tecido”, explica o fisioterapeuta Nilcio Flávio Daniel Cardoso, que está ajudando Victor na missão de recuperar os movimentos.

 

Neste período do tratamento, o jovem fica em uma maca e recebe estímulos na região próxima ao tornozelo, como ligamentos e tendões, além de fortalecimento muscular. Concluída esta fase, Victor poderá colocar o pé no chão e exercitar a panturrilha com pesos e outras atividades cotidianas, como subir escadas.

 

Apesar da dificuldade para prever um prazo para Victor retornar às quadras, Nilcio não tem dúvidas de que o garoto vai conseguir. “A primeira coisa que me chamou a atenção foi o nível de determinação dele. Ele tem muita lucidez sobre o problema dele, sempre pede para fazer os exercícios, sem restrição. Eu proponho um desafio, e ele faz. Isso me motiva mais a ajudá-lo”, elogia.

 

O pai, Adriano, é só orgulho. “É algo inspirador, não encontro palavras para descrever. Todos o olham na cidade, onde ele vai, como um exemplo”, afirma.

 

E o jovem Victor, além da volta às quadras e reencontro com o futsal, tem agora um outro sonho: ser médico oncologista. “Creio que com a minha experiência, vai agregar muito, posso falar para as pessoas o que passei. Quero dar a elas essa esperança”, deseja.

 

Uma fala articulada e tranquila, que expõe a sabedoria e a maturidade de quem, mesmo com apenas 17 anos de idade, já teve que enfrentar muitas lutas. E em meio a uma delas, ganhou uma nova esperança, com um procedimento inédito no Brasil. Natural de Santa Bárbara, região Central de Minas Gerais, o jovem Victor Miguel Pereira Valentim é a primeira pessoa no Brasil a passar por um transplante de tornozelo.

 

O procedimento já havia sido realizado em outros países, mas foi inaugurado no Brasil – mais precisamente em Belo Horizonte - em maio de 2024 e pode transformar em realidade um sonho que Victor nutre a quase quatro anos: voltar a jogar futsal, paixão que o acompanha desde criança. 

 

“Desde os três anos, tinha amor pelo esporte. O futsal me marcou muito, foi onde consegui aprender a valorizar o esporte, tive felicidade, é onde eu esqueço de qualquer problema fora da quadra”, relata o jovem, que gentilmente recebeu a reportagem durante uma de suas três sessões semanais de fisioterapia, em BH.

 

A família de Victor sempre apoiou e alimentou o amor do garoto pelo esporte. O pai, o trabalhador florestal Adriano Valentim, sempre o levava para as quadras, cinco vezes por semana. Afinal, o menino era ‘fominha’, como carinhosamente define o homem. “Ele sempre teve um chute forte com a perna esquerda”, afirma.

 

A grande perda

Aos sete anos de idade, a determinação e a força de vontade de Victor passariam pelo primeiro teste de fogo. Acometida por um aneurisma, a mãe do garoto faleceu em 2014. “Tenho lembranças muito boas, sempre tive um carinho enorme por ela. Foi um período muito difícil para mim e meu pai, pois ficamos cerca de dois anos (e oito meses) só eu e ele, que foi mãe e pai ao mesmo tempo”, relembra, com a voz serena.

 

Uma das terapias de Victor para superar a dor era o futsal, sua paixão, mas até isso o destino tirou do garoto em 2017, quando, aos 10 anos de idade, ele foi diagnosticado com leucemia linfoblástica aguda, um tipo de câncer que faz as células da medula óssea se reproduzirem com erros no DNA.

 

O diagnóstico veio após Victor não conseguir se levantar para jogar bola e, então, procurar um médico. “Nós ficamos sem chão. Foi como se tivéssemos recebido uma sentença de morte. Pensei ‘O que vamos fazer?’, ‘Quanto tempo ele tem de vida?’. Isso é o que a gente pensa de imediato”, recorda-se Adriano Valentim.

 

Ainda em 2017, o tratamento começou e, até 2020, foi bem invasivo. “Tinha uma quimioterapia que era 24h por dia, não parava. Ele ia pro banho com ela, almoçava, dormindo, acordando, tomando quimioterapia”, conta o pai Adriano, que também ressalta a força de vontade do filho durante o tratamento. “Ao mesmo tempo em que ele fazia tratamento, ele estudava no hospital. A vontade de viver dele foi muito maior”, elogia.

 

Várias sessões de quimioterapia, corticoides e remédios depois, Victor venceu a batalha e entrou em remissão total da leucemia, em 2020. As idas ao hospital, com o passar do tempo, ficaram menos frequentes, se limitando a uma vez por mês. Mas durante a cura, veio outro grande baque.

 

A perda dos movimentos

Em meados de 2020, um momento que sempre representou lazer e alegria para o garoto foi o mensageiro inicial de uma má notícia. “Eu estava jogando com meus amigos na pracinha e comecei a sentir muita dor no tornozelo esquerdo. Após mais ou menos um mês de dor, falei com meu pai, fomos a BH e procuramos um ortopedista. Nos exames, foi constatado que eu estava com uma necrose óssea”, relembra Victor. 

 

A notícia significava outro afastamento do esporte, mas o médico, na mesma hora, já mostrou a luz no fim do túnel, com três procedimentos que poderiam resolver o problema. Um deles era a implantação de um cimento ósseo para colocar no lugar do tornozelo, solução que viria a ser adotada de forma provisória depois. 

 

Mas a paixão de Victor pelo esporte gritou mais alto e, com fé e coragem, ele escolheu tentar o transplante de tornozelo, até então nunca feito no Brasil. “Teria o risco de não dar certo, mas na minha fé, confiei que daria certo. Peguei com Deus e minha família”, diz.

 

O renascimento

A partir daí, a equipe de médicos cadastrou Victor Miguel em um banco de doação e aguardou aparecer alguém compatível. Após um ‘quase’ no mês de janeiro, em maio de 2024 veio a grande notícia. “Um dia, chegando do trabalho, minha esposa falou ‘Adriano, tenho uma ótima notícia para você: eles acharam um doador’. Já fomos para os processos da cirurgia, que foi um sucesso. Foi um renascimento para ele”, conta o pai, Adriano Valentim.

 

A cirurgia foi feita em maio de 2024, no Hospital Mater Dei, em Belo Horizonte, onde Victor já vinha fazendo acompanhamento ortopédico desde que descobriu a perda dos movimentos do tornozelo. No procedimento, foi transplantada uma articulação completa, a articulação tibiotársica (tornozelo) que consiste em dois blocos osteocondrais (osso e cartilagem), um da tíbia distal e outro da cúpula do tálus. 

 

A cirurgia exigiu precisão extrema, para evitar risco de perda de movimentos no local. “Os riscos específicos desse tipo de transplante são principalmente a não integração do tecido transplantado, ou seja, o organismo não conseguir ‘integrar’ o osso do doador e esse tecido não sobreviver”, explica o médico ortopedista do hospital Mater Dei Rodrigo Simões Castilho, especialista em cirurgia do pé e tornozelo, responsável por operar Victor.

 

Em busca do sonho

Victor agora está na primeira fase da fisioterapia, na qual o objetivo é ‘reativar’ os tecidos da região do tornozelo, para a região voltar a receber peso. Essa primeira fase do tratamento dura três meses. 

 

“O Victor ficou por muito tempo em imobilização (sem mexer o tornozelo), de três anos e meio a quatro anos. Isso é muito danoso para nosso corpo, nosso organismo tende a ficar muito preso àquela posição na qual ficou parado. Precisamos preparar, mobilizar, soltar esse tecido”, explica o fisioterapeuta Nilcio Flávio Daniel Cardoso, que está ajudando Victor na missão de recuperar os movimentos.

 

Neste período do tratamento, o jovem fica em uma maca e recebe estímulos na região próxima ao tornozelo, como ligamentos e tendões, além de fortalecimento muscular. Concluída esta fase, Victor poderá colocar o pé no chão e exercitar a panturrilha com pesos e outras atividades cotidianas, como subir escadas.

 

Apesar da dificuldade para prever um prazo para Victor retornar às quadras, Nilcio não tem dúvidas de que o garoto vai conseguir. “A primeira coisa que me chamou a atenção foi o nível de determinação dele. Ele tem muita lucidez sobre o problema dele, sempre pede para fazer os exercícios, sem restrição. Eu proponho um desafio, e ele faz. Isso me motiva mais a ajudá-lo”, elogia.

 

O pai, Adriano, é só orgulho. “É algo inspirador, não encontro palavras para descrever. Todos o olham na cidade, onde ele vai, como um exemplo”, afirma.

 

E o jovem Victor, além da volta às quadras e reencontro com o futsal, tem agora um outro sonho: ser médico oncologista. “Creio que com a minha experiência, vai agregar muito, posso falar para as pessoas o que passei. Quero dar a elas essa esperança”, deseja.

 

 

Por O Tempo

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