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Conheça doença que causa deformação corporal e é confundida com obesidade

10/10/23 - 15:17
Foto: Ilustrativa - Apesar de ser uma doença desconhecida pela maioria das pessoas, o lipedema é uma enfermidade que acomete entre 9% e 10% das mulheres adultas do país, o que soma cerca de 5 milhões de brasileiras

 

 

Apesar de ser uma doença desconhecida pela maioria das pessoas, o lipedema é uma enfermidade que acomete entre 9% e 10% das mulheres adultas do país, o que soma cerca de 5 milhões de brasileiras. Conhecido também como síndrome da gordura dolorosa, o lipedema é uma doença crônica caracterizada por depósitos de gordura desproporcionais pelo corpo.

 

O lipedema acomete os membros, em especial as pernas, e é bilateral, ou seja, atinge os dois lados ao mesmo tempo, causando inchaço e furinhos. Por isso, o problema muitas vezes é confundido com obesidade e celulite. Além de ser bastante incômodo na questão estética, ele ainda provoca muito desconforto.

 

Apesar de não ser uma doença nova - ela foi descrita pela primeira vez na renomada Clínica Mayo, localizada nos Estados Unidos, em 1940 - ainda há muita desinformação sobre ela. “Até mesmo muitos profissionais de saúde não têm informações sobre o lipedema”, lamenta o cirurgião plástico Fabio Kamamoto, pioneiro no seu tratamento e diretor do Instituto Lipedema Brasil, criado com o intuito de difundir a doença.

 

A gordura do paciente com lipedema é diferente daquela que temos no nosso organismo. “Ela causa dor, peso, muita sensibilidade ao toque e o surgimento de hematomas espontâneos e, em casos mais avançados, o mal pode evoluir para limitação da mobilidade física e danos no sistema linfático”, explica o cirurgião vascular Sergio Belczak, do Hospital Israelita Albert Einstein.

 

Quais as causas do lipedema?

Os especialistas ainda não sabem explicar exatamente o que causa o problema, mas já se sabe que há influência genética em 2/3 dos casos e que os hormônios femininos, como o estrogênio e a progesterona, são gatilhos para o seu desenvolvimento. Por essa razão, 90% dos casos acontecem em mulheres e surgem normalmente quando elas passam por alterações hormonais, como o uso de anticoncepcionais, gestação, tratamento de infertilidade e menopausa.

 

Além do prejuízo físico, o lipedema pode desencadear problemas emocionais e psiquiátricos. Isso porque a paciente normalmente não consegue ter resultados com atividade física e/ou dietas, o que costuma deixar muitas pessoas frustradas ao não ver mudanças mesmo com bons hábitos de saúde. “Mesmo as pacientes magras ou as que perderam muito peso mantêm o quadro de dor e deformação progressiva dos membros até o ponto de perder a capacidade de locomoção”, diz Kamamoto.

 

“De 5 %a 20% das mulheres atendidas na nossa clínica já fizeram cirurgia bariátrica e apresentaram reduções de peso de até 40 quilos, mas mantiveram a gordura nas pernas e o quadro de dor e inflamação”, acrescenta. Além disso, explica o cirurgião plástico, a maioria sofre com distúrbios de imagem e insatisfação corporal. Todos esses fatores associados podem desencadear a anorexia, bulimia, depressão e crises de ansiedade.

 

Dificuldade no diagnóstico

Infelizmente, ainda não há um protocolo padrão para o diagnóstico da doença e nem exames específicos para a sua detecção. Por isso, é muito importante que seja feita uma avaliação por um médico especialista no assunto que vai analisar o histórico familiar da paciente, como o mal se desenvolveu e fazer um exame físico para averiguar se existem nódulos, hipersensibilidade e perda de elasticidade do tecido adiposo, fatores que indicam que o quadro não está ligado à obesidade.

 

Os especialistas dizem que a falta de protocolo e o desconhecimento do assunto por parte de muitos médicos atrapalham o fechamento do diagnóstico e o início do tratamento, o que é arriscado, pois o quadro não para de evoluir.

 

Assim que a paciente consegue o diagnóstico, ela é acompanhada por uma equipe multidisciplinar com endocrinologista, ginecologista, nutricionista, cirurgião vascular, cirurgião plástico, psicólogo e psiquiatra, entre outros. O indicado é que a paciente evite ganhar peso e faça exercícios de baixo impacto, de preferência com o auxílio de um profissional de educação física. As atividades realizadas na água são muito bem-vindas, pois, além de não causarem impacto, dão uma força para a circulação.

 

O trabalho de um fisioterapeuta também ajuda bastante. Ele pode utilizar técnicas como drenagem linfática, enfaixamento compressivo e uso de meias de compressão e botas pneumáticas para melhorar a circulação linfática e o retorno do sangue ao coração. As terapias de ondas de choque também podem auxiliar, pois favorecem a circulação e ainda quebram as fibroses formadas pela gordura. 

 

Alimentação anti-inflamatória

A alimentação é um capítulo à parte para quem sofre com lipedema. Não basta reduzir as calorias, é preciso investir em uma dieta que ajude a contornar todos os aspectos do problema. “É indicado que ela seja anti-inflamatória, com baixo índice glicêmico pois, muitas vezes, pode haver resistência à insulina. A alimentação deve ajudar a melhorar a retenção hídrica e recuperar o tecido conjuntivo”, explica a nutricionista Adriana Kachani, que é colaboradora do Programa da Mulher Dependente Química do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo, especialista em imagem corporal e transtornos alimentares.

 

A nutricionista costuma adotar a dieta mediterrânea que é baseada no consumo de alimentos frescos e naturais, como azeite, frutas, legumes e cereais, já que ela conta com gorduras saudáveis, carnes magras e itens antioxidantes e anti-inflamatórios. Alguns chás que aumentam a circulação e são anti-inflamatórios, o de cavalinha, hibisco e gengibre, entre outros, também ajudam bastante, assim como a ingestão de colágeno, vitaminas, como a C e a A, e prebióticos e probióticos para melhorar a flora intestinal. “Restringir bebida alcoólica e produtos industrializados também é muito importante nesse caso”, destaca.

 

Quando a enfermidade chega a um estágio mais avançado, o tratamento também pode incluir cirurgias. “Algumas medidas ajudam a melhorar os sintomas, mas, segundo o Consenso Americano de Tratamento de Lipedema publicado em 2021, a única técnica capaz de remover as células doentes é a operação", afirma o cirurgião plástico Kamamoto. “A cirurgia reduz o volume dos membros em até 40%. Algumas pesquisas demonstram muitos ganhos de qualidade de vida com menos desconforto. O acompanhamento de pacientes até oito anos após o procedimento mostra que esses benefícios se mantêm”, acrescenta.

 

“O procedimento é um tipo de lipoaspiração específico feito por especialistas no tratamento da enfermidade. Ele é feito com cânulas que aspiram a gordura associadas a fontes de calor, como o laser, que estimulam a aderência da pele ao corpo, pois com a retirada do tecido adiposo pode sobrar bastante excesso de tecido”, explica Belczak, cirurgião vascular do Einstein.

 

Se para quem tem recursos para pagar um plano de saúde ou um atendimento particular não é fácil chegar ao diagnóstico e ao tratamento da doença, para quem depende da saúde pública fica ainda mais difícil. Por isso, o Instituto Lipedema Brasil e outras instituições têm desenvolvido pesquisas sobre o tema e levado mais conhecimento a todos. “Assim como eles, existem muitas pessoas trabalhando no assunto e desenvolvendo estudos sobre ele, o que aumenta os argumentos e subsídios para exigir um tratamento adequado no Sistema Único de Saúde (SUS)”, diz Belczak. 

 

 

Por Agência Einstein

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