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Correios deve receber menos dinheiro do governo em 2027 e crise com bancos pode agravar

18/07/26 - 13:39
Foto: Marcelo Camargo/ABr - Uma alternativa para evitar desgastes junto às instituições financeiras, seria liberar recursos ao longo do ano. Mas a ideia enfrenta resistências dentro do próprio governo, justamente por causa da exigência contratual

 

 

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) quer diminuir a quantidade de recursos gastos pela União para tampar o buraco nas contas dos Correios. O aporte para a estatal previsto no projeto de Orçamento de 2027 é inferior a R$ 6 bilhões. A medida ainda está em discussão e é menor que o previsto no contrato firmado com os bancos, que concederam um empréstimo de R$ 12 bilhões à estatal.

 

Uma alternativa para evitar desgastes junto às instituições financeiras, seria liberar recursos ao longo do ano. Mas a ideia enfrenta resistências dentro do próprio governo, justamente por causa da exigência contratual.

 

Técnicos consideram um erro não incluir a cifra desde já nas previsões orçamentárias, pois seria como subestimar uma despesa da qual o Executivo não poderá fugir. Por outro lado, um valor reduzido livraria o governo de propor agora, em meio à campanha eleitoral, cortes mais drásticos em outras áreas para abrir caminho ao aporte.

 

Dois integrantes do governo confirmaram à Folha que a discussão sobre o valor existe e a possibilidade de um montante menor está na mesa, mas o martelo ainda não foi batido. Uma definição sobre o tema deve acontecer só no mês que vem, próximo à data de envio do PLOA (projeto de Lei Orçamentária Anual) ao Congresso, até 31 de agosto.

 

A cláusula do aporte foi um pedido dos cinco bancos que concederam o empréstimo aos Correios: Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Bradesco, Itaú e Santander. Na época, o Ministério da Fazenda precisou entrar em campo para garantir que a operação fosse fechada.

 

Para transmitir confiança no equilíbrio futuro da empresa e na própria capacidade de ela honrar as prestações do empréstimo, a Fazenda acenou com a possibilidade de injetar recursos da União no caixa da companhia até o fim de 2027. As instituições então exigiram a formalização da promessa em cláusula contratual.

 

No contrato, obtido pela Folha, a União se comprometeu a honrar o vencimento antecipado da dívida em caso de "ausência de aporte da União aos Correios dos valores necessários para a boa execução do plano de reequilíbrio em, no mínimo, R$ 6.000.000.000,00 (seis bilhões de reais), entre os exercícios de 2026 e 2027, nos termos da legislação vigente".

 

O termo "vencimento antecipado" que consta no contrato significa que, se não cumprir essa exigência, a União precisará honrar o pagamento de todos os R$ 12 bilhões contratados, mais os encargos já transcorridos, de uma única vez.

 

O governo não previu até agora nenhum valor de aporte em 2026. Mantido esse cenário, restaria apenas o ano de 2027 para cumprir o repasse exigido pelo contrato.

 

A capitalização de empresas estatais não dependentes, como é o caso dos Correios, fica dentro do limite de gastos do arcabouço fiscal e da meta de resultado primário (obtida pela diferença entre receitas e despesas). Por isso, acomodar a despesa no PLOA exige cortes em outras áreas.

 

Pessoas ligadas ao governo e à empresa não acreditam que haverá aceleração das cobranças e apostam no aporte integral dos recursos previstos. No entanto, elas reconhecem que prever um valor menor no PLOA de 2027 não é o cenário ideal.

 

Procurado, o Ministério da Fazenda disse que "as informações serão divulgadas quando a proposta for encaminhada ao Legislativo". O Planejamento foi procurado por meio de sua assessoria na tarde desta sexta-feira (17), mas não respondeu até a publicação deste texto.

 

A discussão ocorre no momento em que os Correios negociam um segundo empréstimo, no valor de R$ 7 bilhões, para continuar tocando o plano de reestruturação da empresa.

 

Como mostrou a Folha, apenas instituições privadas devem participar da nova captação, diferentemente da primeira rodada, quando os bancos públicos capitanearam as negociações a pedido do governo Lula.

 

Segundo pessoas que acompanham as negociações, o Citibank e o Deutsche Bank estão entre as instituições que participam das conversas e devem compor o sindicato de bancos que concederá o novo empréstimo. Procurado, o Citi não respondeu, e o Deutsche Bank afirmou que não comenta o tema.

 

Registros públicos mostram que, em 17 de junho, integrantes da área financeira dos Correios se reuniram com representantes dos dois bancos, além de membros do J.P. Morgan e do ABC Brasil. O compromisso foi descrito como uma reunião entre "Correios e Sindicato dos Bancos", cujo tema era a "revisão de algumas condicionantes apresentadas na proposta para empréstimo".

 

O J.P. Morgan foi procurado por email na tarde desta sexta, mas não respondeu. O ABC informou não comentar casos específicos.

 

O secretário do Tesouro Nacional, Daniel Leal, também chegou a manter tratativas com outros bancos estrangeiros, incluindo representantes do BofA (Bank of America), do BNP Paribas e do Bank of China. Emissários das duas últimas também se reuniram com o presidente dos Correios, Emmanoel Rondon, até o início de junho, segundo registros públicos.

 

BofA e BNP Paribas não quiseram se manifestar. O Bank of China não respondeu.

 

Segundo um participante das discussões, o empréstimo deve ficar nos R$ 7 bilhões já previstos, mas os bancos entrarão com valores diferentes, ou seja, a divisão não será igualitária.

 

Na primeira operação, também houve diferenças no "tamanho do cheque": BB, Caixa e Bradesco emprestaram R$ 3 bilhões cada, e Itaú e Santander, R$ 1,5 bilhão cada.

 

O custo da nova operação precisará respeitar a tabela de custo máximo para créditos com garantia do Tesouro Nacional, que limita a remuneração dos bancos a 120% do CDI (Certificado de Depósito Interbancário). A estrutura deve ser semelhante ao primeiro empréstimo, que teve prazo total de 15 anos e carência de três anos até o início do pagamento das prestações.

 

Os recursos do novo crédito precisam entrar na conta ainda em 2026, para que a companhia consiga manter seus compromissos em dia. Mas a situação é mais confortável do que no ano passado. A frustração das metas do PDV (programa de demissão voluntária), embora negativa, acabou ajudando a manter mais recursos em caixa, uma vez que o pagamento de incentivos foi menor que o previsto inicialmente no plano.

 

Os Correios acumulam prejuízos crescentes desde 2022. No ano passado, o resultado ficou negativo em R$ 8,5 bilhões.

 

No primeiro trimestre deste ano, já sob os efeitos do plano de reestruturação, o prejuízo somou R$ 3,16 bilhões, quase o dobro do observado em igual período do ano passado (resultado negativo em R$ 1,7 bilhão). Os gastos com a regularização de contas em atraso contribuíram para piorar o desempenho financeiro da empresa.

 

 

Por Folhapress

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