A liderança global das Testemunhas de Jeová atualizou a política em relação às transfusões de sangue. A partir de agora, os fiéis da denominação cristã estão autorizados a ter o seu próprio sangue coletado, armazenado e "devolvido" ao corpo durante procedimentos cirúrgicos e tratamentos médicos específicos.
A medida, conhecida na medicina como transfusão autóloga, representa uma flexibilização em uma das regras mais conhecidas e controversas do grupo religioso. Contudo, a organização mantém o veto absoluto às transfusões alogênicas, ou seja, os membros continuam terminantemente proibidos de receber sangue, plasma, glóbulos vermelhos, glóbulos brancos ou plaquetas provenientes de doações de outras pessoas.
O anúncio oficial foi feito nesta semana por Gerrit Losch, membro do Corpo Governante, a liderança central da religião. Em seu pronunciamento, Losch determinou que a escolha de realizar o procedimento com o próprio material biológico passa a ser uma questão de foro íntimo. "Cada cristão deve decidir por si mesmo como seu sangue será usado em cuidados médicos e cirúrgicos", afirmou o líder, transferindo a responsabilidade da decisão para a consciência individual do fiel.
As Testemunhas de Jeová são um movimento religioso de base cristã amplamente reconhecido pelo seu evangelismo de porta em porta. A instituição afirma que reúne cerca de nove milhões de seguidores em todo o mundo, sendo aproximadamente 900 mil apenas no Brasil. A recusa histórica às transfusões fundamenta-se em uma interpretação literal de passagens do Antigo e do Novo Testamento, como as de Gênesis, Levítico e Atos dos Apóstolos, que ordenam aos fiéis que se "abstenham de sangue", considerando-o sagrado e representativo da vida.
"Nossa crença fundamental a respeito da santidade do sangue permanece inalterada", reforçou um porta-voz oficial da instituição logo após a divulgação das novas diretrizes. Na prática, a mudança facilita o planejamento de cirurgias eletivas (pré-agendadas), como operações ortopédicas ou cardíacas, onde o paciente pode doar sangue para si mesmo semanas antes da intervenção.
No entanto, a flexibilização esbarra em limitações críticas. Em casos de emergências médicas, traumas graves com perda severa de sangue ou tratamentos oncológicos complexos, como leucemias que exigem múltiplas transfusões de doadores compatíveis, a nova regra não oferece amparo aos pacientes da denominação.
Críticas de ex-membros e dilemas judiciais
A atualização da doutrina gerou reações mistas. Para dissidentes e ex-membros da religião, a mudança é vista como insuficiente diante do risco à vida. O norte-americano Mitch Melon, ex-integrante do grupo, expressou publicamente a sua frustração com os limites da nova política em entrevista ao jornal "Los Angeles Times".
"Se uma Testemunha de Jeová passar por uma emergência médica com perda significativa de sangue, ou se uma criança precisar de múltiplas transfusões para tratar certos tipos de câncer, essa mudança de política não lhes concede total liberdade de consciência para aceitar intervenções potencialmente vitais que envolvam sangue doado", argumentou Melon.
O embate entre a liberdade de crença e o direito à vida, especialmente envolvendo menores de idade, continua a gerar disputas judiciais complexas ao redor do mundo. Em dezembro do ano passado, um tribunal de Edimburgo, na Escócia, precisou intervir no caso de uma adolescente de 14 anos que necessitava de suporte transfusional pós-cirúrgico.
Apesar de a jovem ter afirmado aos médicos que não consentia com a transfusão devido às suas fortes convicções religiosas, os advogados de um conselho de saúde escocês acionaram a Justiça. A juíza Lady Tait concedeu uma ordem judicial autorizando a equipe médica a realizar o procedimento contra a vontade da paciente e de sua família. Na sentença, a magistrada argumentou estar convencida de que a transfusão era indispensável para preservar a vida e o benefício da criança, mesmo "dando o devido peso às suas opiniões" religiosas.
No Brasil o tema já foi alvo de diversas questões jurídicas. O Supremo Tribunal Federal (STF) formou maioria em setembro de 2024 a favor de que Testemunhas de Jeová recusem, por convicções religiosas, tratamentos de saúde com transfusão de sangue de terceiros. A Corte analisou dois recursos envolvendo as convicções desses religiosos.
Por O Tempo
Sete Lagoas Notícias
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