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Ataques em escolas motivam novos casos e deixam autoridades em alerta em Minas Gerais

05/04/23 - 17:26
Foto: Pixabay - A alternativa para enfrentar os diversos episódios de violência em unidades de ensino se dá por meio de uma atuação conjunta entre famílias, comunidade escolar e instituições de segurança

 

 

O ataque a uma creche que vitimou três meninos e uma menina, com idades entre 5 e 7 anos, em Blumenau, no Estado de Santa Catarina, e deixou outras quatro crianças feridas, sendo duas em estado grave, coloca em alerta as autoridades de segurança e de educação em Minas Gerais. Isso porque a cada novo episódio de violência em unidades de ensino do país, os casos se intensificam nas escolas mineiras. Uma situação que torna um espaço desenvolvido para potencializar habilidades físicas, cognitivas e afetivas de crianças e adolescentes em um reduto do medo, em todo o Estado.

 

"O que acontece em Minas é uma espécie de espelhamento desses atos. Há um aumento sempre que ocorrem esses casos de violência e de ameaças em outros estados. Felizmente, se é que podemos dizer assim, são ameaças, o ato, em si, não chega a ser concretizado", relata a porta-voz da Polícia Militar de Minas Gerais, a major Layla Brunella. Conforme a representante da instituição, essas ameaças, em sua maioria, ocorrem como forma de externar algum problema vivenciado pelos autores. "É uma maneira que encontram de chamar a atenção, seja por alguma questão social, algum problema na família ou na escola", completa.

 

Na última segunda-feira (3), a polícia foi mobilizada após uma série de denúncias de ameaças na Escola Estadual Dona Eleonora Nunes Pereira, na região Central de Minas Gerais. Os estudantes tiveram que deixar as salas de aula e se reuniram no pátio da unidade de ensino, enquanto os militares faziam a vistoria das dependências da escola. As ameaças haviam sido feitas em uma rede social, e uma adolescente de 11 anos é investigada suspeita de ser a autora das mensagens.

 

"Eu estava trabalhando quando recebi um áudio da minha filha dizendo que estava no pátio da escola porque a polícia estava investigando uma ameaça de invasão. Como mãe, é uma insegurança terrível. Você fica sem saber o que faz, se considera aquela ameaça como uma brincadeira ou se existe a possibilidade real de uma invasão", lembra Elenice Prado, de 50 anos, que é responsável por uma estudante da escola e que atua como professora do ensino fundamental em unidades da rede municipal de Itabira.

 

Para Elenice, o episódio ocorrido na escola de sua filha é reflexo de uma mudança de comportamento dos alunos que, segundo ela, estão mais confiantes na agressividade. "A gente, enquanto professores, lidava com isso antigamente. Só que a gente repreendia e eles paravam, hoje parece que perderam o limite", relata a profissional que atua no ofício a cerca de 22 anos, junto a alunos do primeiro ao quinto ano, que possuem até onze anos.

 

A professora acredita que a mudança de comportamento pode estar relacionada ao avanço da tecnologia, o que permite uma maior facilidade no acesso às redes sociais. Contudo, ela considera outro fator determinante o relaxamento da família no acompanhamento dessas crianças no ambiente escolar.

 

"A internet influencia muito, mas não é um fator isolado. Muitas das vezes, as crianças só têm acesso a esses conteúdos através de alguém que utiliza a rede social. Então essa pessoa passa a ser responsável. Outra coisa que a gente observa muito é um relaxamento dos pais. Aquele acompanhamento, de levar e buscar na escola, por exemplo, não existe mais quando o filho alcança uma certa idade, e isso distancia a família da escola", explica a professora.

 

Esses fatores também são considerados determinantes nos episódios de violência em instituições de ensino, conforme aponta a psicóloga e especialista em direitos humanos de crianças e adolescentes Andreia Barreto. Ela acredita que o distanciamento da família do ambiente escolar, seja por negligência ou por causa do excesso de trabalho, faz com que esses casos se tornem ainda mais frequentes.

 

"O pai, a mãe ou algum responsável percebe a mudança de comportamento daquela criança ou adolescente. Só que por algum motivo eles deixam essa situação passar, não dão a atenção que deveriam. E isso só colabora para que essas ameaças ou até mesmo os atos de violência aconteçam", alerta.

 

Barreto também considera que a pandemia da Covid-19 afetou a saúde mental destes estudantes. Conforme a psicóloga, as medidas sanitárias, que restringiram as aulas presenciais, como modo de enfrentamento à propagação do vírus, afetaram o processo de desenvolvimento da sociabilização dos alunos.

 

"As crianças e os adolescentes não estão conseguindo expressar suas emoções, principalmente pós pandemia, que não seja de outra forma senão pela agressividade ou violência. Existe, sim, uma realidade de adoecimento psíquico muito forte", aponta a especialista.

 

Famílias, escolas e segurança pública

A alternativa para enfrentar os diversos episódios de violência em unidades de ensino se dá por meio de uma atuação conjunta entre famílias, comunidade escolar e instituições de segurança. É o que apontam especialistas sobre o tema. Para eles, a prevenção, seja por meio de projetos educativos ou de ações de segurança, são urgentes e devem ser priorizadas.

 

"Infelizmente, hoje, essa aproximação com a família e com a polícia só acontece quando o aluno tem algum problema, e muitas das vezes já é tarde. Uma criança não acorda e diz que vai matar alguém só porque essa pessoa lhe fez raiva. É algo que ocorre há algum tempo", aponta a professora Elenice Prado, que atua com estudantes do ensino fundamental na rede municipal de Itabira, na região Central de Minas Gerais.

 

Prado acredita que além da atuação conjunta com a família e com as instituições de segurança, as escolas deveriam contar com uma equipe multidisciplinar, formada por psicólogos e assistentes sociais. "Quando você tem esse conjunto de profissionais para abraçar essas crianças, isso é benéfico. Esses alunos passam boa parte do dia fora do ambiente escolar, então esses profissionais vão ajudar nesse acompanhamento, diagnosticar se existe algum problema", sugere.

 

Essa rede de apoio também é defendida pela major Layla Brunella, porta-voz da Polícia Militar de Minas Gerais. Conforme a representante da instituição, essa aproximação é o que vai auxiliar na identificação dos problemas e antecipar as ações de prevenção. "É uma forma da escola e da família colaborar com o trabalho da polícia. Prevenir é sempre a melhor alternativa", expõe.

 

Atualmente, a Polícia Militar desenvolve uma série de ações com o objetivo de garantir a segurança nas unidades de ensino em todo o Estado. Entre elas, a instituição destaca o Programa Educacional de Resistência às Drogas e à Violência (Proerd) e o Patrulhamento Escolar. "São programas que aproximam a polícia do ambiente escolar. Além destes, temos programas de meio ambiente e de trânsito que levam os militares às unidades de ensino. Essa presença, quase rotineira, resulta em efeito preventivo nas escolas de Minas".

 

Escolas não devem ser como os presídios

Embora as escolas se tornem cada vez mais alvo de ameaças e de ações violentas, elas não devem ser planejadas como um espaço fechado, que inibe o contato dos estudantes com o ambiente externo. Essa é a avaliação da professora e especialista em direitos das crianças e dos adolescentes Andreia Barreto. "A escola deveria ser aberta, de livre acesso. Um local de cuidado da comunidade e de toda a sociedade. Só que, infelizmente, no Brasil elas são um espaço frágil", avalia.

 

Barreto acredita que a transformação das unidades de ensino em espaços "trancados, de segurança máxima", seja de forma física ou por meio de outras ações, prejudica o desenvolvimento dos estudantes. "A escola, que seria o local de socialização, tem virado um local que não mais se preocupa com a formação dos alunos. Parece ter ficado em segundo plano. Hoje a principal discussão é sobre a hostilidade nesses ambientes", explica.

 

Essa também é a avaliação da analista criminal Guaracy Mingard, que é membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Para ele, embora as instituições necessitem dos equipamentos de segurança e da colaboração de instituições como a polícia, elas não devem ser transformadas em um "campo de concentração".

 

"Um segurança armado na porta da escola, por exemplo, poderia intimidar as crianças, intimidar os pais. É importante que se invista em uma segurança maior, mas é algo muito complicado e que precisa ser discutido", aponta.

 

Violência como forma de chamar a atenção

No episódio da creche de Blumenau, em Santa Catarina, o suspeito pelo ataque é um homem de 25 anos. Ele pulou o muro da instituição e atacou crianças com uma machadinha. O suspeito se entregou à polícia, e a motivação do crime ainda é investigada.

 

"Quando a gente acompanha esses atos de violência praticado por outras pessoas, que não fazem parte daquele ambiente, isso sugere que essa pessoa possa ter algum transtorno psíquico, que precisa ser levado em consideração", alerta a psicóloga Andreia Barreto.

 

Para a especialista, esses traumas podem ter alguma relação com o espaço escolar. No entanto, Barreto alerta que esse tipo de violência ocorre, quase sempre, com objetivo de chamar a atenção e chocar a sociedade.

 

Políticas públicas em Minas Gerais

A Secretaria de Estado de Educação de Minas Gerais (SEE/MG) garante que desenvolver uma série de iniciativas, ações e projetos no combate à violência no ambiente escolar nas escolas que fazem parte da rede estadual de ensino. Os trabalhos, conforme a pasta, são desenvolvidos junto aos professores, estudantes, familiares dos alunos e a Polícia Militar de Minas Gerais.

 

"Defender e garantir os direitos humanos nas escolas estaduais, além de promover o respeito às diversidades e uma escola acolhedora", afirma a Secretaria, por meio de nota. A resposta da Secretaria de Educação pode ser lida na íntegra abaixo.

 

Veja a nota da SEE/MG

 

"A Secretaria de Estado de Educação de Minas Gerais (SEE/MG) informa que a rede pública estadual de ensino desenvolve diferentes iniciativas, ações e projetos no combate à violência no ambiente escolar. Como o Programa de Convivência Democrática, que procura defender e garantir os direitos humanos nas escolas estaduais, além de promover o respeito às diversidades e uma escola acolhedora. O programa é constituído por documentos e protocolos que orientam sobre as intervenções e encaminhamentos em situações de violências e violações de direitos nas escolas.

 

Outra iniciativa são os Núcleos de Acolhimento Educacional (NAEs), formados por psicólogos e assistentes sociais, que atuam nas escolas estaduais de Minas. Os especialistas realizam um trabalho itinerante, em diálogo constante com a comunidade escolar, a fim de auxiliar a gestão escolar e os profissionais da educação na resolução de conflitos, na identificação de situações de vulnerabilidade e na promoção de ações que cooperem para a melhoria do ambiente escolar.

 

A SEE/MG conta também com importante parceria da Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG), que atua rotineiramente no ambiente escolar para reduzir a ocorrência de delitos. Por meio de programas com a Patrulha Escolar, que realiza rondas preventivas no entorno das unidades de ensino, propiciando um ambiente mais seguro para a comunidade escolar, e no Programa Educacional de Resistência às Drogas (Proerd), que por meio da formação humanista prepara os jovens para tornarem-se cidadãos responsáveis e capacitados para a condução de uma vida segura e saudável.

 

Em relação à educação infantil em creches e pré-escolas, esclarecemos que o desenvolvimento de ações e programas voltados para as modalidades competem aos municípios e redes privadas de ensino. "

 

"Eles buscam um cenário de horror e sabem que essa violência vai causar isso. A cena vai causar essa sensação e chocar a sociedade porque o alvo é uma escolar", expõe.

 

 

Por O Tempo

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