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Delegado Juarez Ferreira fala sobre a criminalidade em Sete Lagoas e região

07/05/17 - 19:11
Foto: SeteLagoasNotícias - Em entrevista exclusiva, chefe do 19º Departamento de Polícia Civil aponta problemas, soluções e o papel da sociedade na promoção da segurança pública

 

 

 

Nascido em Belo Horizonte, aos 51 anos, o delegado Juarez Ferreira da Luz enfrenta o desafio de chefiar o 19ª Departamento da Polícia Civil, importante braço da 19ª Região Integrada de Segurança Pública (Risp). O departamento concentra a responsabilidade de prestar os serviços de inteligência em uma área que abrange 16 municípios da microrregião de Sete Lagoas.

 

Na bagagem, ele trouxe a experiência de comandar os trabalhos da Polícia Civil em várias cidades e, também, de participar da gestão da Defesa Social no Governo de Minas. Em sua segunda passagem em Sete Lagoas, Juarez Ferreira, na entrevista exclusiva ao SeteLagoasNotícias.com.br, a seguir, ele fala de problemas e soluções do combate à criminalidade na cidade e nos municípios que compõe sua região de segurança pública.  

 

 

7LN - Como foi a trajetória do senhor na Polícia Civil?

 

Juarez Ferreira - Ingressei no quadro da Polícia Civil em 1986, como investigador de polícia, e fiquei quase 11 anos nessa função, período em que fiz faculdade, me formando em 2003. Em 2005 fiz concurso para delegado, passei, e estou nessa função desde então. A partir daí, rodei por algumas cidades no interior do estado, incialmente em Guanhães, onde fiquei aproximadamente por 5 anos. Depois fui promovido para a Segunda Classe e fui para Vesapasiano. Trabalhei por quase sete anos ali. Com a minha promoção para a Classe Especial, fui alçado a delegado regional de Pedra Azul, e de Pedra Azul fui para Ipatinga. Depois vim para a Sete Lagoas como Delegado Regional e aqui fiquei por quase três anos. Saí e fiquei um ano fora trabalhando na Cidade Administrativa, na assessoria do secretário (estadual de Defesa Social), e retornei em fevereiro deste ano como atual chefe do departamento de Polícia Civil.

 

 

7LN - Como é a relação da Polícia Civil em Sete Lagoas com os poderes instituídos e com a comunidade em geral?

 

Juarez Ferreira - Não só em Sete Lagoas, mas em quase todos os municípios onde a Polícia Civil está presente, o um relacionamento é hipermente muito bom, seja com as autoridades municipais, com o Poder Judiciário e o Ministério público. Um relacionamento profícuo, pelo qual os trabalhos assim acabam se desenvolvendo de forma melhor e mais fácil.

 

 

7LN – Qual avaliação o senhor faz da participação da Polícia Civil neste início de trabalho da 19ª RISP?

 

Juarez Ferreira – Na verdade as instituições já trabalham juntas faz tempo. O que criou a Risp foi essa necessidade de galgar recursos, trazer mais recursos para as instituições onde elas estão instaladas. Mas já é um trabalho muito bom, mesmo. Mas já havia a integração em nível da Delegacia Regional com o 25º Batalhão da Polícia Militar e a Risp veio só aprimorar isso que já existia.   

 

 

7LN – É possível fazer um diagnóstico sobre o que é preciso melhorar para que a integração entre as corporações de segurança pública aconteça de maneira plena?

 

Juarez Ferreira – Acho que a médio e longo prazo a tendência é que a gente mude a legislação e tenha uma polícia única, uma instituição única, mas aqui em Sete Lagoas considero que essa integração já é excepcional. A Polícia Militar, por ser demanda na maioria das ocorrências pela comunidade, e a partir da ocorrência que ela desenvolve, encaminha para a Polícia Civil iniciar a investigação. E assim, a partir da simples comunicação de um ato delituoso, podemos chegar a uma investigação que na ponta demore seis meses, um ano, para mitigar todos os conflitos dali, sejam de menor ou maior complexidade.

 

 

7LN - Quais são as características que tornam o combate ao crime em Sete Lagoas uma missão árdua?

 

Juarez Ferreira – Os nossos acessos, pois a cidade é cortada pela BR 040 e isso aumenta muito as dificuldades, a cidades circunvizinhas, Neves de um lado, Vespasiano de outro e Santa Luzia, ou seja, geograficamente, Sete Lagoas sofre influência também da criminalidade da capital, e, muitas vezes, por ser uma cidade interiorana, Sete Lagoas era tratada também como cidade do interior. Mas hoje, com a Risp, vai melhorar bastante no aporte de materiais e pessoas.

 

 

7LN – E a mesma colaboração acontece em relação à integração com as polícias desses outros municípios?

 

Juarez Ferreira – Hoje nós temos Sete Lagoas como cidade polo de 16 municípios e nós temos Vespasiano como a 3ª Risp, onde temos um bom relacionamento com os colegas que exercem essa função. O meso acontece na área de Pedro Leopoldo, sentido Belo Horizonte. Como nós vimos desvinculados da 14ª região, nós estamos incrustrados entre Curvelo, onde está a 14ª Risp. Além de Vespasiano, que é a 3ª Risp, também tem Contagem, que também toma conta de Ribeirão das Neves. Então, esse cinturão é todo integrado para fechar a área em que cada ocorrência que houver.

 

 

7LN – Na região há uma quantidade muito grande de estradas vicinais e várias comunidades rurais vêm reclamando do aumento do número de ocorrências. O que torna difícil melhorar o policiamento também na zona rural?

 

 Juarez Ferreira – É como você bem colocou, é pelo acesso. Os acessos são ruins, falta sinalização nas estradas e a gente não tem a quantidade de veículos 4x4 adequada para rodas nelas. Mas a doutora Mariza (Andrade), nossa delegada regional, numa iniciativa pioneira, ela criou aqui em Sete Lagoas uma equipe que atende especificamente às ocorrências da área rural, com três investigadores e uma viatura. É uma medida e nós estamos tentando implementar mais recursos para esse enfrentamento. Ela atende às 12 cidades que compõem a microrregião de Sete Lagoas. Essa equipe faz trabalhos em todas elas.  

 

 

7LN – O senhor acredita que, historicamente, a Polícia Civil vem tendo menos atenção dos governos do que deveria, em termos de investimentos em capacitação e infraestrutura?

 

Juarez Ferreira – Não diria que tem menos atenção ou menos capacitação. Isso acontece de acordo com a situação financeira do estado e atualmente ele está passando uma situação difícil, e tanto nas administrações anteriores como na atual ele sofreu e sofre com a falta de recursos. Na medida do possível, o governo tem nos colocado à par. Nós precisamos hoje é de aumento no quadro pessoal. O aumento do efetivo seria uma coisa importante. Os recursos de ordem material, computadores, equipamentos, armamentos, viaturas, nós temos o suficiente.  Nosso quadro de pessoal, em detrimento de aposentadorias recentes, vem sendo fragilizado. Chegaram 16 novos investigadores no ano passado. Mas todo dia nós temos um servidor de férias, licenças médicas, de casamento e as aposentadorias precoces, por doença etc. Com a Reforma da Previdência, muitos servidores já estão antecipando suas aposentadorias com medo de perder o benefício.

 

 

7LN - O número de denúncias feitas por meio do Disque Denúncia 181 vem batendo recordes em todo o estado, de acordo com o Governo de Minas. A que o senhor atribui esse fato?

 

Juarez Ferreira - Ao acesso à informação do cidadão e ao mecanismo de fazer a denúncia sem se expor perante ao denunciado e também à comunidade. Muitas vezes essas denúncias, esse número elevado, abriga também denúncias brancas, inócuas. Às vezes as pessoas têm alguma rivalidade entre família, vizinhos, inimigos e acabam usando esse serviço para atingi-los. Então essas denúncias precisam ser filtradas, realizar uma análise primeiro, para depois desencadear uma investigação.  

 

 

7LN – De forma geral, os cidadãos colaboram com o trabalho da Polícia Civil ou as pessoas ainda têm medo de denunciar crimes?

 

Juarez Ferreira – De forma geral, essa colaboração tem sido pouca, algumas cidades colaboram mais que outras, o cidadão precisa ser mais operoso. As pessoas precisam saber o seguinte: a polícia é parceira da sociedade. Muitas informações só chegarão aqui se o cidadão vier nos comunicar. Eu conclamo a população a participar, a vir aqui, que participe do exercício da segurança pública em nosso município.

 

 

7LN – Algumas redes sociais como Facebook e Whatsapp vêm funcionando tanto para o bem como para o mal. Ajudam a localizar pessoas desaparecidas ao mesmo tempo em que revelam locais de blitz da PM. O que o senhor pensa sobre isso?

 

Juarez Ferreira – As redes sociais, a internet como um todo, fazem parte de um mundo que não tem fronteiras. Ela nos auxilia muito, mas também pode atrapalhar. Não só sobre a questão de blitz, mas também em casos como o do jogo Baleia Azul, com os jovens passando muito tempo conectados e em redes sociais. Então nós temos que pensar em um marco regulatório para a internet, com definições específicas e uma nova legislação para crimes cibernéticos, que hoje só são tratados pela orientação do Código Penal. Importante também que os pais orientem seus filhos quanto ao que eles acessam. A família precisa trazer os filhos para pertos dos pais. Hoje tem muita desagregação familiar e os filhos passam horas e horas na internet sem saber com quem realmente estão se relacionando. Isso é um risco muito grande.  

 

 

7LN – Temos apenas uma delegacia de crimes cibernéticos, em Belo Horizonte, para atender ao estado inteiro. É suficiente?

 

Juarez Ferreira – A demanda é muito grande e precisamos multiplicar essa delegacia pelo interior do estado. Mas, no momento, não existem recursos para isso. Precisamos de um trabalho em conjunto das polícias nessa área cibernética, com ajuda da área federal, e talvez um aporte de recursos para que pudéssemos pulverizar em sedes de departamentos as delegacias especializadas nessa finalidade. Seria o ideal.

 

 

7LN – Vêm sendo veiculados na mídia local vários casos de estupros em Sete Lagoas. Em alguns casos, as vítimas preferem ficar em silêncio, temendo represálias. Isso é prejudicial ao trabalho da polícia?

 

Juarez Ferreira – É um crime constrangedor, que causa um sofrimento na própria alma, mas ela deve buscar apoio especializado da Delegacia de Mulheres para o trabalho de acompanhamento psicológico e denunciar. Hoje ela foi uma vítima, mas se a gente conseguir tolher, tirar essa pessoa da comunidade, ela não vai cometer outros estupros. Sei que é um caso grave, que a pessoa sente vergonha de se expor, mas lá terá uma equipe especializada. A vítima tem que denunciar, porque é a partir da denúncia dela que serão evitados novos casos.  

 

 

7LN – Algo a acrescentar?

 

Juarez Ferreira – Gostaria de convocar mais uma vez a comunidade a colaborar conosco, que compareça às unidades e não tenha descrença porque a ocorrência foi apurada e ela não teve notícias. Em muitas vezes os crimes são ações privadas. A pessoa faz a ocorrência com a Polícia Militar, mas não vêm à delegacia representar, e essa ocorrência fica parada por seis meses. Depois, por empecilhos legais, não podemos tomar providências. Busquem a delegacia logo após a ocorrência com a Polícia Militar para fazer o termo de representação. Só assim a autoridade policial poderá dar início à perseguição penal.

 

 

Por Cyro Gonçalves

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