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Antônio Pontes conta como construiu empresas sólidas em Sete Lagoas

04/04/17 - 21:57
Foto: SeteLagoasNotícias - Em entrevista exclusiva ao SeteLagoasNotícias.com.br, empresário fala de valores que moldaram seu perfil empreendedor e sobre como aproveitou grandes oportunidades

 

 

Aos 77 anos e sem pensar em se aposentar, Antônio Pontes da Fonseca, um dos principais empreendedores de Sete Lagoas, é uma daquelas pessoas que não têm tempo a perder. Diversificando em várias frentes de investimentos, ele tem que se desdobrar para administrar as empresas das quais é sócio, como a Pró-Flora, a Margusa, a Marflora, a Icibra e a Calsete Concreto. Todas são importantes pilares de Sete Lagoas para fomentar a indústria de base e setores como a construção civil. Juntas elas geram mais de 500 empregos na cidade.

 

Mas a menina dos olhos é mesmo a Calsete Concretos, sua primeira oportunidade de passar de empregado, quando atuava como contabilista, a empregador, tornando-se referência de homem de negócios bem-sucedido. No último dia 7 de março, a empresa que ele diz “ter no sangue”, situada às margens da BR 040, comemorou 47 anos de atividades e continua firme em sua trajetória.

 

Aliás, é justamente a geração de empregos o maior fator motivacional para que ele continue trabalhando. Por conta desse desejo, Antônio Pontes investe também em áreas que a princípio não estavam no script, como comércio, entretenimento e hotelaria. O empresário tem participação em empreendimentos como o Shopping Sete Lagoas e o Hotel Veredas. E ainda pretende ampliar a diversificação.

 

Casado há 54 anos, com Cicele Maria Pontes, tem quatro filhos e oito netos. E é na família que busca os valores que costuma projetar em sua atuação como empreendedor. Foram os bons exemplos dados pelos pais que moldaram sua formação. Na entrevista a seguir, ele fala sobre como esses valores influenciaram também seu perfil empreendedor e como aproveitar boas oportunidades:

 

7LN - Como o senhor se tornou empreendedor?

Antônio Pontes - Eu não comecei minha vida como empreendedor. Comecei como empregado, dia 10 de fevereiro de 1958, ganhando salário mínimo. E as pessoas me falavam assim: você estudou, você é um contabilista, e vai ganhar salário mínimo? Eu respondia, agradeço a Deus por uma porta ter se aberto para mim. De agora para frente vai depender de mim. Nesse emprego fiquei 12 anos e pedi demissão espontaneamente, quando eu era o contador geral do Banco Agrícola de Sete Lagoas. Então, a partir daí é que fui convidado por dois empresários de Sete Lagoas para construir a Calsete, que começou a funcionar dia 7 de março de 1970. Quem emitiu a primeira nota fiscal, que naquela época era talonário, carbono, fui eu. Então, eu brinco que a Calsete está no meu sangue. Eu tinha uma participação inicialmente de apenas 10%, não tinha dinheiro. Mas surgiu a possibilidade três anos depois, em 1973, de adquirir os outros 90% dos sócios que tinham o restante do capital. E graças ao apoio e confiança que eu tive do presidente do Banco Agrícola àquela época, Sr. Márcio Alves Costa, e do Sr. Genildo Dias Magalhães, que era gerente do Banco do Brasil, eu levantei os recursos suficientes para comprar essa parte dos sócios que tinham 90% do capital. E a partir daí, em 1973, eu continuei como sócio fundador, presidente da Calsete, e completei a diretoria com mais três sócios. Ao longo desses anos temos nos dado muito bem na sociedade.   

 

7LN - O que a Calsete representa para o senhor como lição?

Antônio Pontes – Olha, uma realização como ser humano. A minha mãe, que foi uma pessoa maravilhosa, me ensinou que dificuldades todos nós podemos ter. Então, nas dificuldades, busque a força interior, levante a cabeça e siga em frente. Quantas dificuldades eu enfrentei e ainda enfrento ao longo de todos esses anos? São metas difíceis de serem alcançadas, de serem superadas. São obstáculos que enfrento a cada dia. Então, com perseverança, empenho, dedicação e esforço, a gente consegue superar. São valores que a Calsete representa.    

 

7LN - Por que a Calsete foi importante para Sete Lagoas e região nestes últimos 47 anos?

Antônio Pontes – Principalmente porque ela sempre faturou para outros mercados. Então, são recursos que a Calsete traz para Sete Lagoas, trazia e continua trazendo, importantes para a circulação do dinheiro em Sete Lagoas, e também, muito importante para a geração de empregos. Só nós que já fomos desempregados sabemos avaliar o quanto é importante a geração de empregos. Eu trabalho tanto na minha vida não é para reunir bens materiais, porque isso não vou levar para o túmulo. Agora, você não empreende sem investir e gerar emprego. Então, minha realização é essa. É como, por exemplo, no Shopping Sete Lagoas, onde me empenhei a fundo, conseguimos trazer o shopping para Sete Lagoas, onde tenho participação de 10%. Mas isso não é o mais importante. O mais importante é que além de atender ao comércio de Sete Lagoas, foram gerados ali mil empregos. São mil pessoas que trabalham nas diversas atividades, lojas e supermercados, diariamente. Isso é o que me realiza.

 

7LN - O que Sete Lagoas e região representam para a Calsete? Aqui é mesmo um bom lugar para se investir?

Antônio Pontes – Sem dúvida. A posição geográfica de Sete Lagoas, a logística, ela é muito importante para vários segmentos. Nós hoje, por circunstâncias do mundo dos negócios, estamos montando empresas. Compramos empresas e vendemos empresas. Então, nós temos o nosso mercado local, com a Calsete Concreto, com fornecimento de calcário para diversos segmentos. Agora, nós entendemos que essa nossa participação em todos esses anos tem sido muito importante não só pela empresa Calsete, mas pelo empenho que temos dedicado a trazer novos empreendimentos para Sete Lagoas.

 

7LN - Existe alguma meta em especial a ser batida pela empresa ao chegar a seus 50 anos?

Antônio Pontes – Na minha vida, nunca estipulei metas. As coisas vão acontecendo naturalmente. Sempre com fé em Deus, a gente vai superando as dificuldades com muito trabalho. E à medida que elas vão surgindo, as coisas vão se concretizando. Eu não tenho uma programação “vai ser assim”, só quem tem muito dinheiro é que vai programar assim. Eu não busco dinheiro.

 

7LN - O improviso é o diferencial nesse caso, acompanhando as demandas e movimentos do mercado?

Antônio Pontes – Isso é fundamental. Se você vai instalar um negócio, tem que fazer uma pesquisa primeiro, saber a situação da economia do país, ou se você vai produzir para o exterior. Então são as variáveis que, lógico, não são improvisos. Qualquer negócio que é proposto, eu não improviso. Eu analiso primeiro e depois avalio se vou concretizar ou não.

 

7LN – Como a Calsete se contextualiza nessa atual crise econômica do país, que também deriva de uma crise política e moral?   

Antônio Pontes – Infelizmente, ao longo desses 59 anos de trabalho, eu nunca senti nosso querido Brasil numa situação econômica tão difícil quanto a que estamos no momento. Vários fatores naturalmente contribuíram para isso. O governo, sem entender às vezes como funciona o setor produtivo, toma medidas econômicas erradas e isso acaba levando ao ponto que chegou. Mas tenho sempre confiança de que o Brasil é maior do que os problemas que surgem. Infelizmente, hoje, eu atribuo isso muito aos pais não orientarem seus filhos àquilo que recebi de meus pais. Eles não deixaram herança material para mim, mas deixaram a principal herança, que é a formação do bom caráter, a seriedade com o trabalho, a honestidade. Educação. Isso está faltando no mundo de hoje. E olha, nós não éramos ricos. A dificuldade era tamanha na casa de meus pais que nossa alimentação consistia em feijão, que naquela época era barato, angu e verduras, que a gente plantava no quintal. E não ficávamos reclamando da vida por causa disso, não.  Nós temos que agradecer a Deus pela vida. Trabalhar é uma questão natural. Devemos fazer isso pela vida. Você realmente não consegue colher sem plantar. Por que às vezes os negócios chegam até nós aqui? Em virtude de nosso histórico de comportamento, de honestidade, de assumir e honrar compromissos, estejam escritos ou não. Esses valores são muito importantes e isso está faltando por parte dos pais, de orientar os filhos, dentro dos princípios que mencionei. Espero que isso possa mudar. Muitas vezes os pais querem entender que a escola deve educar, mas isso deve partir deles, do berço. A escola pode complementar.    

 

7LN – Como o senhor avalia o relacionamento do Poder Público com as empresas geradoras de emprego? Há colaboração para manutenção de um cenário harmônico ou é preciso melhorar?

Antônio Pontes – Nós nunca devemos considerar que tudo esteja maravilhosamente bem. O que está bem pode ser melhorado. E não vamos generalizar. Penso que o poder público deveria ouvir mais diretamente o setor produtivo, porque muitas vezes as entidades de classe, sejam patronais ou de empregados, que representam muitas empresas, não têm as informações detalhadas de cada setor. Por isso, como aconteceu no dia 15 de dezembro, por meio do deputado federal Bilac Pinto, eu consegui marcar uma reunião no Ministério da Fazenda em Brasília. Fui até lá e fui bem recebido pelo subsecretário da Fazenda, com toda a sua equipe, e ele disse isso para mim. É preciso uma maior aproximação de vocês do setor produtivo com nós que administramos o país. Então, considero que isso é necessário, sim, principalmente setorialmente, porque as entidades de classe congregam muitas empresas. Pegando determinados segmentos, talvez se consiga resultados melhores.

 

7LN – Em Sete Lagoas, o prefeito Leone Maciel buscou no setor produtivo o seu secretário de Desenvolvimento Econômico, Bruno Chaves Violante. O senhor considera a escolha acertada?

Antônio Pontes – Fez muito bem. Aliás, ele primeiro solicitou às entidades de classe que indicassem três nomes, e assim foi feito. Desses três nomes, ele pensou o nome do atual secretário, que tem ido muito bem, porque ele conhece o setor produtivo e suas demandas.

 

7LN – O senhor é um crítico do atual modelo de taxas de câmbio. O que deve mudar?

Antônio Pontes – Eu acompanho a economia desde que comecei a trabalhar em banco e depois na nossa empresa. Gente, a economia indo bem é bom para todos os cidadãos. Quando ela vai mal, é desemprego. Estamos com quase 14 milhões de desempregados. É triste. Mas por que acontece isso? Nós estamos no mundo globalizado. Seja no Brasil ou em qualquer outro lugar, se não tiver uma política cambial alinhada com o que ocorre no país e também em outros países, ele fica fora do mundo. É o que tem acontecido com o Brasil. Estamos olhando demais para o umbigo de nós brasileiros e esquecendo o que tem lá fora também. Olhar para nós mesmos é muito importante, sim. Mas se não olhar o que acontece lá fora, gera desemprego aqui. Saber o câmbio correto é uma coisa tão simples. A inflação que existe no país ao longo dos anos tem impacto no custo de tudo que é produzido. Se o valor do dólar não acompanhar pelo menos de perto a inflação interna brasileira, os produtos fabricados aqui, que sofrem impacto dessa inflação, perdem competitividade aqui porque fica mais barato importar, e perde lá fora, onde não consegue competir. Então, isso é péssimo. Essa é uma tese defendida pelo professor Antônio Delfim Neto, que tem conhecimento de causa: um país nunca deve nortear a contenção de sua inflação com base no câmbio. Isso é um erro. Você contém inflação é gerando produção, porque a inflação nada mais é do que mais demanda do que oferta de produtos. No dia em que você tiver mais oferta de tudo, certamente manterá a inflação sob controle.

 

7LN – E o que senhor nos diz sobre essa diversificação de negócios em que está sempre envolvido?

Antônio Pontes – A diversificação que ocorreu foi de forma natural. Não que eu quisesse participar de shopping. Mas eu observava que Sete Lagoas perdia muito com nossa população tendo que sair para comprar em outras cidades. A cidade cresceu e precisava de um shopping. Nós não tínhamos dinheiro para comprar um shopping, mas tínhamos um terreno que entendíamos que ali seria adequado para se instalar um shopping. E assim foi feito, procuramos uma empresa profissional do ramo, que é a BR Malls, com sede no Rio de Janeiro, e foi ela que construiu, opera e administra o shopping muito bem. São terrenos que compramos há 35 anos. Da mesma forma foi o Hotel Veredas, em que investimos também. Agora pretendemos lançar, ali também ao lado do shopping, nesse terreno que compramos há 35 anos, um empreendimento imobiliário que denominamos Residencial Veredas, que vai ser também um diferencial para aquela região. Sete Lagoas precisa desconcentrar, no centro, no miolo, o trânsito está ficando muito difícil. E eu me lembro bem, que em 1985, fomos visitar a sede da Cargil, em Mineápolis, nos EUA, e gostei de conhecer. A cidade tinha, na época, o dobro da população de Sete Lagoas e era desconcentrada, com grandes avenidas, sem problemas de trânsito. Eu me lembro bem que ao retornar falei com o então prefeito Marcelo Cecé da importância de termos grandes avenidas. Felizmente, Sete Lagoas hoje tem uma Perimetral com 26km, tem a Norte e Sul, tem a Avenida Renato Azeredo, que são artérias importantíssimas para o desenvolvimento da cidade. Então, pra que concentrar tudo no miolo? Vamos tentar abrir. Você abrindo, está promovendo o desenvolvimento do município. Então, é isso que temos procurado fazer dentro dessa diversificação. Ela vai surgindo naturalmente, porque você vai tendo um ideal. No meu caso, é geração de emprego.

 

7LN – Alguns analistas e entidades dizem que a Lei da Terceirização, recém-sancionada com a justificativa de melhorar a geração de empregos no país, atende sobretudo a interesses dos empregadores, que são o lado mais forte na relação de trabalho. O senhor concorda com essa visão?

Antônio Pontes – Existem muitos equívocos da parte das entidades patronais e de empregados. Uma depende da outra. Então, para que criar conflito? Tem que haver diálogo, aproximação, entendimento, porque sempre um dependerá do outro, isso é muito bom. Agora não adianta gerar uma luta de classes para gerar desemprego. Gerar emprego é muito importante, fui empregado 12 anos e ali foi a base para que eu pudesse continuar. Por isso prego sempre o diálogo. Nas nossas empresas, nunca tivemos uma greve. Por quê? Eu afirmo, não sou contra greve. Mas não façam greve sem dialogar, porque aí eu sou radical. Se fizer greve sem dialogar primeiro, eu fecho as portas e desemprego todo mundo. Porque, se eu lutei para gerar emprego, é como me dar um tapa se primeiro não procurar o diálogo. É fundamental que haja um bom entendimento entre as partes.

 

7LN – Na sua visão de empregador, a CLT precisa realmente de uma reforma?

Antônio Pontes – Olha, o mundo desenvolve de forma bastante acelerada e nossa CLT é muito antiga, ela precisa ser atualizada. Em qual ponto? Não sei. Os deputados e senadores que estão lá é que devem buscar informações nos diversos segmentos e procederem aquelas alterações que forem necessárias para todos os setores, sejam patronais ou de empregados. Eu tenho pouco conhecimento da legislação trabalhista no mundo, porque com as dificuldades que tenho para administrar empresas, não tenho como ampliar esse campo de visão. Os negócios me absorvem enormemente, mas pelo que leio, há necessidade sim de uma adequação da legislação brasileira aos avanços de outros países. 

 

7LN – Como o senhor avalia o papel dos sindicatos de trabalhadores e patronais no cenário político e econômico do país? Eles são utilizados da forma que deveriam?

Antônio Pontes – Também não podemos generalizar. Sete Lagoas, neste ponto, teve sempre um bom relacionamento entre os setores patronais e de empregados. Eu, em 59 anos, participei disso como empregado e empregador e entendo que não há de que reclamar. Sempre houve diálogo e entendimento. Em nível nacional, infelizmente, se adotam nos sindicatos muito mais a defesa de interesses dos dirigentes sindicalistas, e não da classe em si. Isso é uma falha. Existem sindicatos em que as pessoas se eternizam na direção, não há rotatividade. Mas é um tanto difícil responder porque não conheço a fundo. Falo por observação, mas pode melhorar sim.

 

7LN – Gostaria de deixar uma mensagem, para encerrarmos?

Antônio Pontes - Se há uma coisa que gosto muito é de conhecer pessoas, o ser humano. Penso que nenhum de nós é completo e que na vida nos completamos, sim, uns com os outros.  E é assim que há o desenvolvimento. Nenhum de nós sabe tudo e eu sempre me pauto por isso. Assim tenho feito ao longo da vida. 

 

Por Cyro Gonçalves

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