Uma série de ameaças feitas contra agentes penitenciários no mesmo dia em que uma rebelião na penitenciária Dutra Ladeira, em Ribeirão das Neves, na região metropolitana de Belo Horizonte, foi deflagrada, provoca apreensão entre a categoria. Segundo o presidente do Sindicato dos Agentes de Segurança Penitenciária de Minas Gerais (Sindasp-MG), Adeílton Rocha, foi feito um alerta para os trabalhadores, e a situação foi comunicada para a Secretaria de Estado de Sistema Prisional (Seap) com um pedido de providências para que a segurança dos agentes seja garantida.
“Estamos em alerta. Isso mostra os perigos que os agentes estão enfrentando para garantir a segurança da sociedade mineira. Não basta prender sem dar as condições de trabalho”, reclamou. A Seap, por sua vez, informou que “está apurando as circunstâncias de todos os áudios e vídeos gravados supostamente dentro de uma unidade prisional e que circularam nas redes sociais”.
Nas mensagens de WhatsApp que vêm sendo compartilhadas exaustivamente entre os agentes desde segunda-feira, é possível ouvir vozes que seriam tanto de presos quanto de bandidos em liberdade, organizando ataques na capital e na região metropolitana. “Tem que começar a passar o carro nos agente, tem que começar a matar os cara (sic)”, diz uma das mensagens, atribuída a um criminoso que estaria foragido e foi que identificado apenas como Fubá.
Em outro áudio, um criminoso pede que descubram endereços de casas de agentes da penitenciária Dutra Ladeira. Uma mensagem detalha que facções criminosas estariam oferecendo prêmio de R$ 5.000 por cada trabalhador de segurança morto.
Há a suspeita ainda de relação das ameaças com o atentado sofrido por um monitor de segurança da penitenciária administrada por parceria público-privada de Ribeirão das Neves, baleado no mesmo dia do motim. Ele é filho de um agente da Dutra, levou cerca de dez tiros e seguia internado até o fim da tarde dessa terça-feira (17). Rocha, porém, não acredita na ligação. “Temos milhares de agentes indo e voltando do trabalho no mesmo horário do crime. Deve ser investigado, claro, mas não acreditamos em relação”, avaliou.
Transferência. Os líderes da rebelião na Dutra Ladeira – que começou na noite de segunda-feira e durou cerca de seis horas – devem começar a ser transferidos nesta quarta-feira (18) para outras penitenciárias do Estado. Eles estariam isolados.
O secretário adjunto de Estado de Administração Prisional, Robson Lucas da Silva, descartou ligação com os massacres de Amazonas e Rio Grande do Norte, mas não garantiu que Minas esteja livre da crise. Apesar do dia tenso, o secretário disse que o presídio está “em harmonia”. “Todos os procedimentos de segurança já são observados naturalmente, os detentos estão recolhidos em suas celas, retiramos todos os pertences que foram danificados com o movimento e todo o complexo se encontra em perfeita harmonia neste instante”.
Buscas
Pente-fino. Segundo a assessoria de imprensa da Secretaria de Estado de Administração Prisional, um balanço das buscas por armas, drogas e celulares na Dutra Ladeira será divulgado nesta quarta-feira (18).
Gestor
O diretor geral Rodrigo Machado reassumiu a gestão da penitenciária Dutra Ladeira na última semana de dezembro. Ele é agente penitenciário de carreira e já havia dirigido o presídio em 2014. Considerado linha-dura e prestigiado junto ao governo, ele tem a garantia da Secretaria de Estado de Administração Prisional de que seguirá no cargo.
Balanço
Oito detentos ficaram feridos com balas de borracha e estilhaços de bombas de efeito moral no motim. Um agente penitenciário foi agredido com uma barra de ferro na cabeça. Três celas foram totalmente destruídas e uma teve a porta estragada. Colchões e roupas de cama foram queimados.
Superlotação
Com capacidade para 1.163 presos, a penitenciária de Ribeirão das Neves tinha até essa terça-feira (17) 2.109 detentos, praticamente o dobro do que comporta.
Reivindicações
Os presos reclamam de agressões, de mudanças nas visitas, que passaram de semanais para quinzenais, e da atuação supostamente violenta do Grupo de Intervenção Rápida (GIR).
Clima tenso e de espera por notícias na porta da Dutra
Mesmo após o fim do tumulto na madrugada dessa terça-feira (17), o clima durante todo o dia foi tenso em frente à penitenciária Dutra Ladeira, em Ribeirão das Neves, na região metropolitana de Belo Horizonte. Mães, mulheres e filhos dos presos passaram o dia esperando informações.
No início da manhã houve tumulto quando a aposentada Maria Aparecida Martins, 53, foi atropelada por um carro que, de acordo com testemunhas, seria conduzido por um agente penitenciário que acabara de deixar o serviço no presídio. “Eu estava dormindo aqui na porta à espera de notícia do meu filho quando o carro me atingiu. Ele podia ter me matado”, reclamou a mulher enquanto era socorrida com ferimentos no pé esquerdo por militares.
OAB
O presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), William Santos, foi impedido de entrar na unidade. “Houve violação, não deixar o advogado entrar é crime. Chegamos de manhã e fomos avisados à tarde que nossa visita estava suspensa. Protestamos, ficamos na portaria até 20h. Amanhã (esta quarta-feira, 18) teremos uma reunião com o presidente da OAB, Antônio Fabrício, para discutir essa situação, que é muito séria”, afirmou. (GC/JRF)
João Renato Faria // José Vítor Camilo
Gláucio Castro : Especial para o Jornal O Tempo















