Prefeito de Sete Lagoas com a maior votação da história da cidade, Marcio Reinaldo termina o mandato acumulando derrotas, problemas, críticas ao seu temperamento e a dificuldade de dialogar
Neste sábado, 31 de dezembro, termina o mandado de Marcio Reinaldo Dias Moreira (PP) como prefeito de Sete Lagoas. Atualmente admirado por alguns, rejeitado pela maioria, no currículo o político acumula inúmeros cargos e experiências importantes na carreira pública, além de polêmicas e desafetos.
Criticado por servidores públicos, vereadores e pela população em geral, pelo temperamento considerado truculento no trato com as pessoas, e também pela falta de inclinação ao diálogo com a sociedade e demais poderes instituídos, Marcio Reinaldo termina de forma melancólica sua passagem à frente do Executivo municipal.
Entre as queixas mais comuns, reclamações de servidores quanto ao descaso com os atrasos de salários, obras públicas realizadas com qualidade questionada pela Câmara Municipal de Sete Lagoas (como o asfaltamento na estrada para Estiva e em alguns trechos da Av. Perimetral, alvos de severas críticas), suspeita de irregularidades na realização de licitações (como no caso do transporte público, fato também denunciado pelo Legislativo) e um verdadeiro caos na área da saúde, culminando com um decreto de calamidade financeira no setor, publicado em agosto deste ano.
Mesmo aplicando mais de 30% do orçamento na Saúde, segundo divulgado amplamente pelo próprio governo, houve uma redução drástica de atendimento nas unidades da cidade, como no PA ou “Hospitalzinho” do Belo Vale, falta de médicos plantonistas (motivadas por atraso de salários), e uma crise sem precedentes com a unidade de saúde responsável por atender a 35 municípios da região, o Hospital Nossa Senhora das Graças (HNSG). Diversos repasses de recursos previstos em lei deixaram de ser feitos pelo Executivo à insituição, sob a alegação de atrasos de outras esferas de poder, comprometendo severamente a saúde financeira do HNSG. O hospital precisou recorrer à Justiça para receber os valores devidos e o caso ainda se arrasta.

Foto: Arquivo - Redução de atendimento em unidades de saúde motivaram protestos da comunidade
Houve, também, no apagar das luzes, uma série de consideráveis problemas consolidados ou a caminho de se consolidar para o município, culminando com a perda da prestação do serviço de oncologia - processo que se iniciou no final de 2015, quando a prefeitura ignorou o alerta feito pela Superintendência Estadual de Saúde à administração quanto ao não cumprimento reiterado de diversas metas estipuladas pela Portaria 140 do Ministério da Saúde.
Após o conturbado desenrolar de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), que investigou funcionários fantasmas e terminou com a divulgação do envio de um relatório sobre o caso para o Ministério Público (além de denúncias de superfaturamento na compra de brinquedos e merenda escolar, falta de médicos e medicamentos), outra CPI foi aberta na Câmara em agosto deste ano, para investigar irregularidades na Saúde. No entanto, as investigações não chegaram a ir adiante, por faltar tempo para a conclusão do processo na Câmara, pois os trabalhos teriam que se estender até 2017 e a atual legislatura termina neste ano.

Foto: Arquivo - Qualidade de obras públicas foi questionada por vereadores em algumas situações, como no asfaltamento da estrada que liga Sete Lagoas a Estiva
Trajetória
Antes desse legado desatroso, Marcio Reinaldo era visto como um político influente, respeitado e, principalmente, poderoso. De acordo com sua página oficial na internet, sua trajetória na vida pública começou em 1960. Formado em Ciências Econômicas pela UFMG, foi nomeado assessor do Banco Hipotecário Agrícola do estado em Sete Lagoas, onde fez carreira, até se mudar para Belo Horizonte. Na década seguinte se mudou para Brasília e ocupou cargos importantes de assessoria no Ministério da Saúde, por onde permaneceu sendo nomeado para cargos de chefia até 1994.
Em 1995, Marcio Reinaldo teve sua primeira eleição para um cargo legislativo. Tornou-se deputado federal e foi reeleito diversas vezes, sendo aclamado como cidadão honorário de 27 municípios. Em outubro de 2012 foi eleito prefeito de Sete Lagoas com 62,19% dos votos, se tornando o chefe do Executivo mais votado da história da cidade.
A expressiva votação, reflexo dos tempos áureos em que fora cotado até para Ministro de Estado, não se converteu na aprovação de sua administração pela população. Ao tentar a reeleição, em 2016, ficou em um terceiro lugar, posição considerada por seus adversários como vexatória, uma vez que o número de votos a seu favor ficou abaixo até mesmo de votos brancos e nulos. Numa disputa em que havia quatro candidatos, Marcio Reinaldo somou 16% dos votos válidos (brancos e nulos chegaram a 22%), atrás de Emílio Vasconcelos (PSB), com 32%, e do prefeito eleito Leone Maciel, detentor de quase 50% dos votos válidos.
Além da fragilidade na articulação política local, sua derrota pode ser atribuída, de acordo com a maioria dos críticos de seu governo, aos inúmeros fracassos na administração pública municipal, concomitantes ao enfrentamento da crise econômica que o país atravessa e ao seu jeito nada ortodoxo de lidar com as pessoas, considerado também pouco sociável.
Isolamento e desequilíbrio
Por todo retrospecto desde sua posse em 2013, o pior ano de sua gestão como prefeito foi justamente 2016, em que uma enxurrada de problemas acumulados ao longo do mandato veio à tona, frustrando seus planos de reeleição. Os inúmeros gargalos na gestão da saúde pública, aliados a escândalos amplamente divulgados pela mídia, críticas sucessivas de membros do Legislativo e um péssimo relacionamento com o funcionalismo público municipal, contribuíram significativamente para a queda de sua popularidade.
Em entrevista recente ao SeteLagoasNotícias.com.br (leia aqui), os dois candidatos atuais à Presidência da Câmara para 2017, os vereadores reeleitos Caramelo (PRB) e Marcelo Cooperseltta (PMDB), falaram do relacionamento do prefeito com o Legislativo: “Acredito que tenha faltado diálogo”, diz Caramelo. “Posso resumir tudo em uma única palavra: diálogo. A falta de diálogo abre espaço para atitudes autoritárias e arbitrárias. Foi o que aconteceu nesta gestão. Os poderes são independentes, mas se não houver harmonia toda administração perde”, complementou Marcelo Cooperseltta.
O gênio forte, considerado, até mesmo truculento por diversas pessoas que convivem com Marcio Reinaldo, é o traço mais evidenciado em sua personalidade, o que nos bastidores da política e em redes sociais culminaram no fato de grande parte dos descontentes com sua conduta se referirem a ele como “Coronel”.
Esse padrão de comportamento não se resumiu à passagem pela prefeitura de Sete Lagoas. Durante sua atuação como deputado federal, em 1995, no Governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB), ele votou favoravelmente a medidas polêmicas como a quebra do monopólio dos estados na exploração de petróleo e gás natural, criação da CPMF, entre outras. Inconformado com as críticas da mídia à sua atuação parlamentar, chamou os jornalistas de “cachorros” e “vagabundos”, o que motivou uma ação de queixa crime da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) no Supremo Tribunal Federal (STF). (clique e saiba mais)
Em maio de 2012, nos corredores do Congresso, virou notícia nacional no malfadado episódio em que desferiu tapas no rosto e no microfone do repórter Felipe Andreoli, do programa humorístico CQC, da TV Bandeirantes (clique para ver o vídeo).
E assim, do mesmo jeito polêmico e desaprovado, ele também encerrou seu mandato de prefeito de Sete Lagoas. Em redes sociais e relatos à mídia, Marcio Reinaldo foi acusado por testemunhas de agredir a tapas e palavras de baixo calão a uma servidora pública da Saúde, durante uma reunião cujo tema era o atraso do pagamento de salários a servidores municipais. Em vídeo postado na rede social Youtube, uma das pessoas que participaram da reunião afirma, taxativamente, ter presenciado a agressão (clique e relembre). O fato não teve grandes consequências, conforme o mesmo relato da testemunha, unicamente pela conduta da servidora envolvida de não prestar queixa contra o suposto agressor.
Pressionado pela mídia a se posicionar sobre o caso, e reforçando sua dificuldade em dialogar, o prefeito preferiu não se manifestar sobre a acusação de agressão à servidora. Ainda assim, uma Moção de Repúdio à sua conduta com a funcionária da Saúde foi levada ao Plenário da Câmara Municipal de Sete Lagoas pelo vereador Milton Martins (PSC), na última reunião ordinária de 2016, realizada em 27 de dezembro.
Despedida
Finalizando o mandato neste sábado (31), o retorno à capital federal, onde sua família reside, foi antecipado por Marcio Reinaldo já após a derrota nas urnas, perante a inexpressiva votação com apenas 16% do eleitorado a seu favor.
Endividamento do município, caos na saúde, salários atrasados e ruas cheias de buracos. Após uma trajetória marcada por conquistas, de um jeito melancólico e extremamente desgastado, Marcio Reinaldo deixa o cargo de prefeito municipal e o resultado de seu governo é uma página que Sete Lagoas quer apagar de sua história.
Da Redação















