Atendendo a requerimento do vereador Milton Martins (PSC), a Câmara Municipal de Sete Lagoas promoverá nesta quarta-feira (19), a partir das 19h, uma audiência pública para debater propostas para diversas questões que envolvem o lixo na cidade, como a geração, o tratamento e o reaproveitamento de resíduos solidos e orgânicos. O debate terá a participação do Diretor Geral da Associação Brasileira de Tecnólogos (Abratec), Gilson Luna, que fará uma apresentação sobre o tema.
Psicanalista clínico e professor universitário, Luna é também membro do Conselho Superior Acadêmico e de Pesquisa da Abratec, além de presidente da Associação Mineira de Meio Ambiente e Turismo (Amatur) e Membro Efetivo da Empresa Brasileira de Tecnologia Ambiental (EBTA). Na entrevista a seguir, ele faz uma análise da situação de Sete Lagoas e fala sobre o potencial da região para se tornar referência no processo de transformação da maneira de a sociedade se relacionar com o lixo:
7LN - Qual vai ser o papel da Abratec nesta Audiência Pública?
Gilson Luna- A instituição vai apresentar caminhos adotados para tratar do lixo de forma geral e, ao mesmo tempo, dando um olhar social, porque o lixo hoje não pode ser mais visto como uma coisa que vai ocupar espaço, poluir e desagregar. Muito pelo contrário. Nossa ideia é mostrar como a sociedade pode interagir dentro da gestão do próprio resíduo, como esse resíduo pode sair das casas pré-selecionado, como uma parte da sociedade que vive à margem pode ser inserida, se tornar visível. Hoje, quando você passa por um catador na rua, você lembra do carrinho que ele está puxando, mas você não lembra da fisionomia do sujeito, porque ele é invisível para a sociedade. A partir do momento em que ele começa a agregar valor para esse lixo, que esse lixo começa a ter um peso dentro da economia, ele começa a visualizar isso de uma forma empresarial, vendendo esse material já segregado, com um valor agregado, ele passa a ter um peso diferente. E pra isso, ele vai começar a ser inserido e informado quanto a saúde pessoal, a segurança da família, e o quanto aquilo pode contribuir para a segurança alimentar, produzindo adubo, e ali por diante. Existe toda uma cadeia que vai acabar no aterro sanitário, dando longevidade a ele. Quanto menor número de resíduos for para o aterro sanitário, mais longa vida ele vai ter. E ao mesmo tempo, mostrar que nós temos hoje tecnologia o suficiente para reduzir essa massa de resíduos a um ponto de não ser destinado praticamente nada. A não ser aquele material que vem dos hospitais, o material infectado, que a legislação não permite que você reutilize. Aí sim, você segregou praticamente 10% daquilo que chegou para ser decomposto. E o do lixo urbano, você vai ficar com uma parte do que chegou, mas boa parte já foi para o reuso, voltou para o processo da economia, e o que ficou vai ser decomposto, vira uma cinza, uma cerâmica, que pode ser utilizada como composto orgânico para adubação ou na construção civil, como agregado. Dar mais vida útil ao aterro sanitário e dar funcionalidade a um lixo que é um luxo, que não pode mais ser visto como descartável. A função da Abratec é sempre levar esse novo olhar e fazer com que a sociedade se envolva com esse projeto e o assuma como um projeto dela. Vocês têm uma horta comunitária em Sete Lagoas que é um espetáculo. Por que ela não ganha mais corpo? Por que o material orgânico decomposto do aterro não é encaminhado para ela, para que se utilize menos material químico na adubação? Então, é essa relação da segurança alimentar uma coisa que nos preocupa muito, também. A função da Abratec, além da questão do desenvolvimento da tecnologia, é a educação, passando pela questão ambiental.
7LN - O senhor já se inteirou sobre a situação de Sete Lagoas neste contexto?
Gilson Luna- Nós fomos visitar o aterro, mas não tivemos êxito. Então, fizemos um levantamento a partir dos quadros estatísticos do IBGE, pelas informações que nós coletamos na cidade e com os próprios catadores. Nós percebemos que pode ser feito muito mais. Não existe hoje uma política definida e orientada no sentido de fazer com que esse “pseudopassivo” se transforme em um bem de inserção, principalmente para a sociedade menos favorecida, que toda comunidade, que todos os municípios têm.
7LN – A Câmara, promovendo esse debate por meio de uma audiência pública, estaria começando a corrigir um erro histórico do Poder Público de ainda não ter conduzido esse processo?
Gilson Luna – Sim. A Câmara, de uma forma bem responsável, tomou para si o discutir dessa questão, em fazer essa correção a médio e longo prazo. A curto prazo é educação. Não tenha dúvida nenhuma. Sete Lagoas pode ser um referencial grande não somente dentro da região, mas em nível nacional, porque quando a Câmara assume esse papel, com os pensadores, com os fiscais do processo, começa a se movimentar uma boa aliança com o Executivo, o que é êxito, sem dúvida nenhuma.
7LN – Que avaliação o senhor faz do contexto do estado quanto à destinação do lixo, considerando que menos de 50% dos municípios, de acordo com a Feam, cumprem as leis ambientais?
Gilson Luna – Isso é uma verdade. Menos de 50%. E tem municípios que estão perdendo suas linhas de investimentos porque não têm projetos. E o que tem de aterros sanitários consolidados e aterros controlados, estão saturados. Eles não estão conseguindo se colocar. Primeiro, porque não existe um modelo de política pública que faça com que a sociedade entenda que ela é responsável por esse processo também. Não é somente o poder público. Nós temos que envolver todos os segmentos da sociedade, empresários, indústria... Somos todos responsáveis pela condução qualitativa disso. Enquanto isso não acontecer, nós vamos ter um complicador grande. Outra coisa, nós temos que perder o hábito de ver o lixo como uma coisa desprezível. Não é. Enquanto a sociedade não tiver essa consciência, não vamos ter nunca um Estado organizado e funcionando de uma forma positiva com relação à finalização do seu lixo.
7LN - Neste contexto, como o senhor avalia a região de Sete Lagoas? Ela tem potencial para ser uma vanguarda dessa transformação?
Gilson Luna – Tem um potencial grande. Sete Lagoas é uma cidade muito desenvolvida, que tem uma clareza muito grande em nível de movimentação, está dentro de um eixo central e pode absorver até os resíduos de cidades menores e transformar o lixo em alguma coisa positiva, buscando o ICMS ecológico, parcerias, buscando uma dinâmica de inserção social, dando visibilidade aos catadores, dando dignidade. O maior patrimônio de um ente público, de um governo, de um município, é o cidadão, é o sujeito. Quando ele faz uma movimentação no sentido de tratar o rejeito que essa sociedade produz de uma forma satisfatória e agregadora, ele muda o conceito. E é essa visão que estou percebendo dentro de Sete Lagoas.
7LN - Algo a acrescentar?
Gilson Luna – Estamos aí para participar desse processo. Temos hoje um quadro muito favorável, com uma Câmara Municipal responsável, um Executivo que se preocupa também. Conversei com o prefeito e com alguns secretários e a preocupação ficou notória no sentido de dar um bom direcionamento à questão. O que tenho a dizer é que estamos mais uma vez alinhados dentro desse processo de construção e educação, fundamentalmente, dentro das questões ambientais.
Serviço:
Audiência Pública sobre Lixo
Local: Câmara Municipal de Sete Lagoas
Endereço: Av. Getúlio Vargas, 111, Centro – Sete Lagoas
Informações: (31) 3779-6300
Data: 19/04/2017
Credenciamento: até 19h
Abertura: 19h30
Apresentação do tema: 19h45
Manifestação de Inscritos: 21h
Considerações finais, encaminhamentos e encerramento: 22h
Por Cyro Gonçalves
Sete Lagoas Notícias















