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Por que mulheres convivem mais com dor crônica e doenças autoimunes?

Por que mulheres convivem mais com dor crônica e doenças autoimunes?

 

 

Diversas pesquisas mostram que mulheres convivem mais frequentemente com dor crônica e doenças autoimunes do que os homens. Condições como lúpus, artrite reumatoide, fibromialgia e síndrome de Sjögren são exemplos em que a presença feminina é predominante.

 

A explicação, segundo especialistas ouvidos pelo Metrópoles, envolve uma combinação de fatores biológicos, hormonais e até sociais.

 

O reumatologista Henrique Dalmolin, chefe da equipe de reumatologia do Hospital Samaritano de Higienópolis, em São Paulo, explica que o sistema imunológico feminino tende a ser naturalmente mais reativo.

 

“Isso é uma vantagem porque elas respondem melhor a infecções e vacinas. Mas essa mesma característica aumenta o risco de o organismo acabar atacando os próprios tecidos”, esclarece.

 

O mecanismo ajuda a entender por que doenças autoimunes aparecem com mais frequência entre mulheres. Nesses quadros, o sistema imunológico passa a reconhecer partes do próprio corpo como se fossem ameaças.

 

Além disso, a forma como o sistema nervoso processa os sinais de dor também pode ser diferente nelas.

 

“Em média, as mulheres apresentam uma sensibilização central mais acentuada, o que significa que o cérebro pode interpretar os estímulos dolorosos de forma mais intensa”, destaca Henrique.

 

Influência dos hormônios

Os hormônios também têm papel importante. O endocrinologista Ricardo Barroso, diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) de São Paulo, explica que o estrogênio influencia diretamente o funcionamento do sistema imunológico.

 

“A presença do estrogênio favorece uma resposta imunológica mais forte, que em alguns casos pode se tornar exagerada e contribuir para o surgimento de doenças autoimunes, como lúpus e artrite reumatoide”, afirma.

 

Segundo ele, a testosterona parece exercer efeito oposto, oferecendo certa proteção contra essas condições.

 

As variações hormonais ao longo da vida também interferem na percepção da dor. Oscilações nos níveis de estrogênio podem alterar substâncias do cérebro responsáveis por modular a dor e a inflamação.

 

Durante a menopausa, por exemplo, a queda do estradiol pode favorecer o aumento de dores crônicas.

 

“A redução desse hormônio pode intensificar quadros como fibromialgia e enxaqueca, além de contribuir para alterações na composição corporal, com aumento de gordura e perda de massa muscular, fatores que também influenciam processos inflamatórios”, explica Ricardo.

 

Genética e fatores externos

A reumatologista Sandra Maria Andrade, da Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR), afirma que as doenças autoimunes também têm relação com os genes.

 

“As pessoas podem nascer com uma predisposição genética que, dependendo de fatores externos e hábitos de vida, pode ativar esses genes e desencadear a doença”, informa.

 

Mesmo assim, a genética não explica tudo. Fatores ambientais, estilo de vida e aspectos emocionais também podem influenciar o desenvolvimento dessas condições. O estresse crônico, por exemplo, pode desregular o sistema imunológico e favorecer processos inflamatórios no organismo.

 

Outro ponto importante é o histórico. Durante décadas, sintomas relatados por mulheres foram frequentemente subestimados na prática médica.

 

“A dor feminina muitas vezes foi atribuída a causas emocionais. Doenças como fibromialgia, endometriose e lúpus têm um histórico de diagnóstico tardio porque os sintomas foram ignorados ou mal interpretados”, ressalta o reumatologista Henrique.

 

Diagnóstico ainda é desafio

Para os especialistas, melhorar o diagnóstico dessas condições passa por mudanças na forma como os sintomas são investigados e interpretados. Para Henrique, um dos principais pontos é valorizar o relato das pacientes.

 

“Muitas vezes o diagnóstico não demora por falta de exames, mas por falta de atenção ao que a paciente está relatando. Escutar com cuidado, sem minimizar os sintomas, é frequentemente o primeiro passo para o tratamento”, aponta.

 

Ele acrescenta que também é importante ampliar a formação dos profissionais de saúde para reconhecer que diversas doenças podem se manifestar de forma diferente em homens e mulheres.

 

 

Por Metrópoles

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